| A Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
através de sua gerente Maria José Delgado, proibiu anúncios dos
medicamentos contra a disfunção erétil. Essa proibição se reúne
a outras, mais antigas, e à intenção declarada de futuras, como
a proibição de comerciais de refrigerantes em horários infantis
(“para combater a obesidade”, segundo um dos censores); à de outro,
ainda, que é inimigo dos automóveis e acha que foi a publicidade
dos carros que os tornou “ sonho de consumo da classe média” e portanto
deveria ser proibida... Já não é permitido, por exemplo, anunciar
mamadeiras ou chupetas. A alegação, para a proibição das mamadeiras
é a de que seu uso incentiva o desmame prematuro dos bebes, e a
relativa às chupetas é a de que o hábito deforma a arcada dentária.
Nem por isso as chupetas e mamadeiras deixaram de ser fabricadas
e compradas. Não teria sido mais útil exigir que, ao anunciar, os
fabricantes advertissem os consumidores dos ricos do uso de um e
de outro produto? Ao proibir a propaganda, as zelosas autoridades
sonegaram uma informação importante ao público.
Como profissional de propaganda tenho muitas histórias a contar
sobre a censura. A nossa agência foi processada em 1972 pela ditadura
porque, a partir de recomendação da Organização Mundial de Saúde,
preocupada com o retorno das doenças venéreas, produzimos uma campanha
discretíssima, para ser veiculada nas páginas esportivas dos jornais,
recomendando o uso de camisinhas. Ocorre que descobriram uma lei
de 1946, aprovada por pressão de zeloso sacerdote católico, que
proibia a divulgação de qualquer método anticoncepcional. Na época
era destacado para a censura aos anúncios um certo “Professor Potiguara”,
a quem devemos o processo criminal. Levamos anos para provar a nossa
inocência, tivemos que contar com a assistência jurídica do advogado
José Carlos Dias e com o testemunho de Pietro Maria Bardi, Mario
Chamie e Jô Soares. Recordo-me que o censor, olhando de soslaio
com a cara enojada para o texto, apontava, com o indicador teso,
uma palavra que lhe parecia horrível: “gonorréria”. Também é do
mesmo torquemada de bolso, outra experiência, de efeito não tão
grave, mas, ao mesmo tempo jocosa e estúpida. Produzimos um anúncio
de bronzeador em que mostrávamos uma silhueta feminina com os seios
delineados delicadamente, com o natural efeito estético. Ao proibir
a veiculação, o argumento do “Professor Potiguara” foi definitivo:
“podemos admitir que as mulheres tenham seios, mas não podemos permitir
que elas os mostrem”, disse ele.
Eu, sinceramente, esperava que a redemocratização do país
viesse e acabar com isso – mas vejo, com indignação, que ainda continuamos
nos tempos das Ordenações Filipinas. A Corte Portuguesa impediu
que tivéssemos tipografias no país (a primeira a vir foi trazida
por D. João VI em 1808); que produzíssemos tecidos (pelo alvará
de D. Maria I, em 1785); e que tivéssemos universidades. Sem nenhuma
preferência por colonizadores, devo lembrar que os norte-americanos
tiveram mais sorte. Nos séculos 17 e 18, os ingleses permitiram
relativa autonomia à Nova Inglaterra, e, assim John Harvard pode
criar o Colégio e futura universidade com o se nome, ainda em 1636.
Nós só tivemos os primeiros cursos universitários (de Direito) em
São Paulo e em Pernambuco em 1827, quase dois séculos mais tarde.
Com a imprensa, ocorreu o mesmo. Quando Benjamim Franklin começou
a publicar seu Almanaque em meados do século 18, já havia tipografias
na América do Norte. Tivemos que esperar meio século para que, graças
a Napoleão e à invasão de Portugal, a Família Real trouxesse o primeiro
prelo para o nosso país.
Proibição de manter tipografias, censura militar, ou portarias médicas
são todas manifestações do que me parece ser um inquisitorial ódio
à informação.
As pessoas têm o direito à busca da felicidade e da condição essencial
para o bem-estar, que é a saúde. E isso só é possível permitindo-lhes
o mais amplo acesso à informação.
Sinto-me autorizado ao desabafo contra a zelosa burocrata que, talvez
com a mesma preocupação do velho “Professor Potiguara”, queria impedir
que as pessoas pensem “naquilo”, já que não podem impedir que os
homens e mulheres sejam dotados de sexualidade e dela queiram fazer
uso: minha empresa não tem contrato com nenhum dos fabricantes desses
produtos. O que se move é o protesto, como cidadão e como profissional.
Como quaisquer medicamentos, os destinados a favorecer a ereção
tem naturais contra-indicações. O que se pode fazer, se for o caso,
é exigir receitas médicas específicas para a compra destes produtos
e determinar aos anunciantes que advirtam contra o abuso. Como nos
anúncios de remédio nos países civilizados, onde os anunciantes
têm de publicar uma página a mais, com a bula. Isto é, o que precisamos
é mais informação, e não menos.
Acrescente-se ainda que a burocrata, através de uma única portaria,
engessou o mercado, mantendo o virtual monopólio da marca Viagra,
impedindo que seus dois concorrentes anunciassem e se tornassem
conhecidos. Que presente maior poderia desejar a Pzifer? Isso é
gravíssimo, e, colocado tal poder em outras mãos, pode propiciar
desvios perigosíssimos.
Espantou-me também a indiferença da mídia e a apatia das associações
que congregam os meios de comunicação. Ninguém protestou. Ao contrário
uma revista até entrevistou a burocrata, sob o título de “Vigilância
Sanitária impõe limites à farra”. A senhora mostrava-se preocupada
com a suposição de que havia jovens, nas baladas, tomando tais remédios
com bebidas e estimulantes. Ora, que provas havia? Que estatísticas?
A 30 reais cada pílula, quantos jovens as estariam tomando?
Proponho que a Abert, a Aner, a ABA, a Abap, a Anj e as faculdades
de comunicação se reúnam e formem o Comitê de Combate às Proibições
e à Censura na Propaganda – CPC para lutar contra a violência praticada
e trabalhar para que as discussões fiquem sempre no âmbito do Conar.
E isso e urgente, porque novas restrições à propaganda estão fervilhando
nos cérebros de legisladores e burocratas, encorajados pelo exercício
do poder.
Roberto Duailibi
Sócio-diretor da DPZ |