Quanto
ganha o presidente do Conar?
Data: 01/04/2001 |
Recentemente houve uma polêmica, que se tornou pública,
entre o ministro da Saúde e o presidente do Conar.
Tratava-se da discussão em torno da proibição da publicidade de cigarros.
O presidente - e por conseqüência a própria entidade -, foram acusados,
entre outras coisas, de defensores da indústria fumageira e de lobistas
em prol da manutenção desses produtos na mídia.
Mas o assunto, pela sua importância, foi muito mais longe, envolvendo
os setores editoriais dos principais periódicos, além de colunistas
importantes de inúmeros órgãos de imprensa.
Afora algumas manifestações de veículos dirigidos ao setor, não nos
lembramos de ter visto nenhuma outra opinião favorável à posição da
entidade.
Em nenhum momento discutiu-se os princípios da liberdade de expressão,
ou da interferência do Estado em assuntos possíveis de serem regulados
pela sociedade, e da ameaça da censura rediviva a todos os setores
intelectuais, no caso específico aqueles que produzem publicidade
para poder vender produtos e, com isso, movimentar a máquina econômica
de um país em busca de seu desenvolvimento. Prevaleceu - de certa
forma - a tese de uma organização com a respeitabilidade do Conar
estar servindo de agente para interesses pecuniários, ou - sendo mais
condescendente - uma associação defendendo o corporativismo da classe.
Como estamos escrevendo para um público especializado na área, pergunto:
alguém imaginou em algum momento que o Conar estava lutando por aspectos
econômicos?
Duvido. Pois, sem mencionar o respeito, nunca desmentido, de todo
o setor pela entidade, sabemos a pouca importância dos cigarros no
PIB da propaganda. Tanto que foi proibida sua publicidade e, no dia
seguinte, o sol voltou a brilhar em todo o Universo.
O Conar assumiu, com os devidos ônus, uma tarefa que deveria ter sido
de todos, independente do mérito da questão que estava em debate.
Este é apenas um exemplo da carga de responsabilidade que recai sobre
os ombros daqueles escolhidos para lutar pela ética e pela liberdade
da livre manifestação do pensamento, ainda que na área comercial,
e de se responsabilizar pelos aspectos institucionais, no caso a liberdade
de expressão e o respeito às normas constitucionais.
Não tem sido diferente outras tantas atitudes de nosso Conselho no
que tange a anúncios antiéticos, mentirosos ou que por qualquer motivo
infrinjam o conceito vigente de moralidade.
O presidente do Conar, sua diretoria e - fundamentalmente - os conselheiros
que compõem as Câmaras de julgamento dedicam dias e noites de seu
precioso tempo para emitir pareceres judiciosos, muitas vezes contrariando
- agora sim - fortes interesses econômicos e comerciais de grandes
organizações.
Tudo, no sentido de manter o respeito às leis do país e ao Código
de Auto-Regulamentação, aprovado por todos os agentes da indústria
da propaganda.
É só fazer as contas: são cinco Câmaras de Julgamento, com onze conselheiros
em cada uma delas, além dos respectivos suplentes; a eles se somam
os diretores da instituição (oito) e os membros do Conselho Superior
(21), todos representando as entidades fundadoras.
Pensando bem, podemos falar em mais de uma centena de profissionais
das mais variadas áreas, da publicidade e da sociedade civil, envolvidos
nesta operação abnegada.
O surpreendente é saber que todos trabalham sem ganhar um centavo.
Muitas vezes sequer a notoriedade, uma vez que as próprias atribuições
do Conar o obrigam a manter um comportamento low profile, fugindo
dos holofotes do noticiário.
Neste ano, que foi escolhido como o "Ano do Voluntariado", nada mais
justo que sublinharmos estes aspectos que, de tão naturais, costumam
passar despercebidos.
Seguramente, não estamos atrás de palmas, prêmios ou olhos úmidos
de emoção.
Trata-se apenas de não esconder o que têm feito os participantes dessa
jornada, em favor da ética do setor e - por que não - da ética de
forma geral, tão carente e cada vez mais necessária para todos os
níveis de nossa nação.
Luiz Celso de Piratininga, diretor-presidente da Adag Serviços
de Publicidade e primeiro vice-presidente do Conar.
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