| Advogado e professor, Fernando Fortes
comenta nesta entrevista as manobras do
Executivo e do Legislativo contra a liberdade de expressão
comercial.
BC – Lideranças publicitárias
vêm manifestando preocupação sobre a quantidade
de iniciativas que visam limitar a liberdade de expressão
comercial.
Fernando Fortes – Elas têm razão.
Seja por parte do Executivo, seja pelo Legislativo, há muita
pressão contra a publicidade, e seria desastroso se elas
fossem avante.
BC – Por quê?
FF – Costumo dizer que a auto-regulamentação
publicitária foi tão bem-sucedida no Brasil que não
foi copiada. Desequilibrar o sistema misto de controle da publicidade
em favor da legislação e em detrimento do autocontrole
seria recuar muitos passos em direção ao passado.
Mesmo porque sabemos que nem todas as leis funcionam, enquanto a
auto-regulamentação funciona de forma extremamente
eficiente, sem demandar tempo e dinheiro público.
Quero deixar claro, a respeito deste tema, que há total
legitimidade do controle social sobre a publicidade, como previsto
na Constituição, e isto não se confunde com
censura. Mas temos aqui um caso em que, efetivamente, a sociedade
tomou para si a responsabilidade e não esperou pelas leis.
Leis são atos de império, necessários quando
a sociedade não reage. Não é o caso da ética
publicitária. Seria bom se o exemplo dos publicitários
se multiplicasse pela sociedade e que as autoridades não
interferissem mais do que o estritamente necessário.
BC – O senhor vê necessidade de interferência
neste momento?
FF – Decididamente não. Sou um entusiasta
do Conar inclusive porque conheço bem o funcionamento do
Judiciário. Em Direito, estudamos a eficiência da norma
jurídica. O que se quer é que a norma funcione, seja
efetiva, produza resultados rapidamente, respeitando-se os princípios
da ampla defesa às partes e do contraditório.
O Conar nasceu destas premissas e é muito mais eficiente
do que o Judiciário, partindo do trabalho voluntário
colegiado, reunindo todas as partes envolvidas, inclusive os consumidores,
com os benefícios de se discutir os casos num ambiente em
que todos ou quase todos os conselheiros conhecem bem o tema, e
sem recursos protelatórios possíveis.
BC – O senhor vê um traço em
comum nos mais de duzentos projetos de lei em tramitação
no Congresso Nacional, que visam cercear a liberdade de expressão
comercial??
FF – As motivações são
diversas, mas os efeitos são os mesmos: debilitar um mecanismo
de auto-regulamentação que funciona e muito bem. Curiosamente,
poucas vezes são propostas iniciativas mais efetivas para
conter o consumo de produtos que se consideram nocivos à
saúde humana. Basta dizer que não há quase
nenhuma limitação à venda de cigarros no país,
muito menos fiscalização que faça valer as
restrições já existentes, como a de venda do
produto para menores de idade. O mesmo vale para medicamentos, bebidas
alcoólicas etc. Em muitos casos, ficamos com a impressão
de que houve cinismo por parte do legislador ao propor a proibição
da publicidade, enquanto a comercialização segue livre,
gerando milhões de reais em tributos para os cofres públicos.
BC – Por que uma concentração
tão grande de projetos de lei nos últimos anos?
FF – É comum, no Brasil, esta passagem
abrupta e inexplicável de um cenário de regulamentação
branda para outro, pesado e exagerado. É um paradoxo, mas
de forma alguma incomum.
BC – Vê perigo real para a liberdade
de expressão comercial no futuro próximo?
FF – Sou otimista a este respeito, apesar
das pressões atuais. É bom ver este conceito de liberdade
de expressão comercial se popularizar rapidamente no Brasil
e hoje ser defendido pela sociedade, lembrando-se de que, além
dos benefícios próprios para o consumidor e a economia
como um todo, a publicidade é o pilar da liberdade de imprensa,
um dos valores mais altos da sociedade moderna. Acho que a sociedade,
amparada em instrumentos como o Conar, vai vencer estas pressões,
por numerosas e perigosas que sejam.
BC – Quais foram as suas impressões
sobre o Seminário Internacional de Auto-regulamentação
Comparada?
FF – Comprovei algo que já é
sabido: os códigos de ética costumam ser mais rigorosos
do que a própria lei. E depois de ouvir as exposições
dos responsáveis pela auto-regulamentação publicitária
no Reino Unido e na Espanha, passei a gostar ainda mais do Conar.
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