Vozes discordantes são consideradas inválidas,
pois "defenderiam a indústria fumageira", não
dando lugar à discussão sobre o mérito
RESTRIÇÕES crescentes à
liberdade de escolha no Brasil colocam uma série de questões
relativas à formação da opinião pública
e aos consensos estabelecidos que são, em boa parte dos
casos, de natureza ideológica e política, e não
científica.
O caso dos fumantes passivos é um bom exemplo disso, na
medida em que não há evidências científicas
que sustentem o nexo causal entre o câncer de pulmão
e os que estão expostos ao fumo alheio. Os estudos são
extremamente inconclusivos a esse respeito, não podendo,
portanto, respaldar uma política de saúde pública.
O livro de Geoffrey C. Kabat, "Hyping Health Risks. Environmental
Hazards in Daily Life and the Science of Epidemiology" (Enganos
públicos de riscos para a saúde. Riscos do meio
ambiente na vida cotidiana e a ciência da epidemiologia),
de 2008, é uma excelente contribuição para
esse debate. Ele incide sobre uma discussão atual sobre
a proibição de fumo em ambientes fechados e mesmo
públicos, independentemente da separação
entre fumantes e não fumantes, como se estes estivessem
expostos aos mesmos riscos daqueles.
Fumantes e não fumantes devem ser preservados, cada um
em suas escolhas, um não interferindo na do outro. Ambientes
exclusivos em restaurantes e bares ou locais reservados para os
que gostam de fumar são a melhor opção para
os que prezam a liberdade de escolha. A campanha, porém,
acaba ganhando tais contornos, com leis sendo discutidas em âmbitos
federal e estadual, além de atos administrativos do Ministério
da Saúde e seus órgãos, que se torna uma
espécie de cruzada, em que a luz da razão é
ofuscada e a crença dogmática ganha primazia.
O nó da questão reside na formação
da opinião pública. Os formadores de opinião
antitabagistas e os agentes públicos tornaram a sua campanha
uma questão de ativismo político, recusando quaisquer
opiniões que contrariem as suas crenças.
Antes de qualquer conclusão científica, estabelece-se
um consenso do ponto de vista da opinião pública,
toda posição contrária vindo a ser considerada
uma espécie de anátema. A questão do fumo
acabou se tornando uma espécie de pivô do ponto de
vista ideológico, sustentando ações politicamente
corretas que servem de base tanto para coibir a liberdade de escolha
quanto para aumentar o poder de ingerência do Estado na
vida privada e consolidar crenças sem bases científicas.
Estamos, no dizer de Kabat, diante de um novo macarthismo na ciência,
produto de um consenso ideológico que termina por se impor
sobre o consenso científico. Ele se traduz também
por perseguições, silêncios e severas acusações
contra os que não compartilham de suas crenças dogmáticas.
Vozes discordantes são consideradas inválidas, pois
"defenderiam a indústria fumageira", não
dando lugar a uma discussão sobre o mérito, sobre
a verdade. O maniqueísmo é total: trata-se de uma
luta do bem contra o mal.
O que está em questão é a posição
ideológica, e não o debate racional. Estamos diante
de uma mentalidade autoritária que procura, de qualquer
maneira, fazer avançar as suas propostas, tanto mais perigosa
na medida em que se abriga sob o manto da ciência, do bem
e do politicamente correto.
A opinião pública funciona como um jogo de espelhos,
onde confluem percepções dos mais diferentes tipos,
podendo ou não corresponder à verdade. No que diz
respeito à incidência do câncer de pulmão
em fumantes passivos, observamos como ilações meramente
associativas, sem nexo causal, começam a ser tidas por
verdadeiras, impulsionando agências governamentais a adotar
uma determinada política.
O consenso científico é muito diferente do consenso
público. Por exemplo, um fumante passivo, segundo distintos
estudos, inalaria o equivalente a sete cigarros por ano, o que
é absolutamente insignificante em termos de saúde
pública.
Na verdade, estamos trabalhando com o que se pode considerar um
paraconhecimento, um conjunto de crenças que passa a ser
o discurso dominante, orientando políticas e o comportamento
de cada um. Uma mera hipótese de trabalho torna-se a prova
absoluta de um perigo real, existente, falseando, dessa maneira,
as condições mesmas do trabalho científico.
DENIS LERRER ROSENFIELD, 58, doutor pela Universidade
de Paris 1, é professor titular de filosofia da UFRGS (Universidade
Federal do Rio Grande do Sul) e editor da revista "Filosofia
Política". É autor de "Política
e Liberdade em Hegel" (Ática, 1995), entre outros
livros.