Uma sociedade democrática e responsável
orienta, alerta, apóia, mas não deve criminalizar
uma ação fruto da liberdade individual
AS SOCIEDADES contemporâneas resolveram
adotar o "politicamente correto" como sua nova ética,
ainda que temperada com razoável hipocrisia.
Examine-se a questão do fumo. A nossa Agência Nacional
de Vigilância Sanitária resolveu propor sua proibição
total em bares, restaurantes e lugares públicos ou privados.
Cubículos para fumantes devem estar fechados, com portas
automáticas, e não poderão ter aparelhos
de recreação, bebidas ou comidas. Os argumentos:
"Fumar faz mal à saúde" e "respeitar
o fumante passivo".
Mas, nos ambientes para os quais haja opção, não
bastaria a obrigação do cartaz "aqui se fuma;
se lhe incomoda, procure outro lugar"? Afinal, desemprego
e trabalho informal também fazem mal à saúde.
Vamos proibi-los? Num mundo em que nosso sistema de produção
apodrece dia-a-dia o ar que respiramos com CO2 e substâncias
cancerígenas, por que não proibir os indivíduos
de respirar?
E quanto ao aquecimento planetário e o extermínio
de espécies, que tal também proibi-los? Ou os indivíduos
de se drogarem?
Os EUA são o maior consumidor de drogas ilícitas
do mundo, obviamente proibidas. E o seu consumo só aumenta,
junto com o crime organizado e a contravenção. Vamos
proibir bebida, suicídio, sexo sem camisinha?
Ao paciente da UTI, em estado terminal, proibiremos que solicite
o desligamento das máquinas artificiais que prolongam seu
sofrimento intolerável e aumentam o lucro da indústria
da saúde?
Uma sociedade democrática e responsável orienta,
alerta, apóia, mas não deve criminalizar uma ação
fruto da liberdade individual, a não ser quando alguém
seja claramente prejudicado em seus direitos.
Para que não haja dúvidas, exerci essa liberdade
e consegui parar de fumar há 40 anos.
No caso do fumo e das drogas, o que parece estar em questão
é que pessoas possam exibir publicamente seu prazer, ainda
que de forma autodestrutiva. O filósofo esloveno Slavoj
Zizek -usando conceito lacaniano- acha que "a imagem do vizinho
que goza demais" nos é intolerável. Curiosamente,
o chamado "assédio sexual" -entendido aqui no
seu sentido amplíssimo- é cada vez mais punido também
nos EUA.
Para Zizek, no entanto, o encontro com o outro é sempre
perturbador.
Quando alguém declara sua paixão, há sempre
algo embaraçosamente violento para quem é objeto
da declaração. E o que são os pequenos gestos
de conquista e sedução? Não é uma
forma sutil de "assédio"? A contrapartida à
total impossibilidade de "assédio" é o
"quero ficar sozinho"; manter o próximo à
distância, junto com o prazer e a dor que um relacionamento
pode causar.
A função da filantropia, para além de ajudar
e aliviar as consciências, é também de manter
o outro -no caso, o pobre- a uma distância não perturbadora;
abrimos e fechamos rápido o vidro escurecido do carro,
damos algo para que não tenhamos mais nenhum envolvimento.
A nossa sutil hipocrisia continua na mania com produtos "corretos",
ou seja, despojados de suas propriedades "maléficas":
café descafeinado, leite sem gordura, cerveja sem álcool,
guerra sem baixas do nosso lado, política sem política.
O escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo
disse querer cobrar dos arrogantes o imenso prazer perdido com
centenas de deliciosos ovos fritos que ele deixou de comer por
terem sido, por décadas, considerados veneno para as coronárias;
até que, no ano passado, foram solenemente declarados saudáveis!
O mesmo Zizek estava com amigos em Los Angeles. Viam uma mulher
cantar blues na TV. Ele comentou que, pela voz, parecia uma negra
afro-americana, embora seu nome fosse europeu. Foi ferozmente
atacado.
Disseram-lhe que essa identificação era inaceitável
e reducionista. Perguntou-lhes, então, se era permitido
identificar as pessoas de alguma forma; disseram que não.
Concluiu que, naquele grupo, o outro só é permitido
como uma abstração. Como se já estivesse
morto.
Enfim, esse outro -imigrante, ocidental, muçulmano, em
suma, diferente- ou mantém-se miragem ou transforma-se
em inimigo potencial que pode nos fazer mal. A aproximação
dele e de suas crenças, por serem elas sedutoras, instigantes
e desestruturantes das nossas, pode significar perigo. Melhor
guardar distância. Se não pudermos apagá-lo
da memória, por que não tentar sua eliminação?
Que tal um atentado às torres gêmeas? Ou uma vingança
a esmo destruindo o Iraque?
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GILBERTO DUPAS, 64, é
presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais
(IEEI), coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional
da USP e autor de "O Mito do Progresso" (Unesp), entre
outros.