"Trata-se de um mundo cada vez mais correto, no papel
– e cada vez mais chato, na vida real."
O cidadão que trabalha, paga impostos
e trata, basicamente, da sua vida não faz ideia da quantidade
de leis e regulamentos a que tem de obedecer hoje em dia para
viver bem. Também não sabe a quantidade de coisas
que está proibido de ler, ver e ouvir – mais uma
vez, para o seu próprio bem. Ele mesmo, naturalmente, não
sabe como cuidar de si, nem definir a sua qualidade de vida; é
preciso, assim, que o poder público pense e decida em seu
lugar, escolhendo o que é melhor para todos e para cada
um, e isso desde a primeiríssima infância. A maior
parte dos brasileiros não sabe, mas é proibido por
lei, por exemplo, fazer publicidade de mamadeiras, chupetas e
bicos para mamar, "em qualquer meio de comunicação"
– e, para não ficar nenhuma dúvida, também
são vetados "promoções, cupons de desconto,
sorteios e brindes" envolvendo esses produtos. A ideia superior
das autoridades, no caso, é promover a amamentação
no seio materno. Para sorte dos bebês que não gostam
de se alimentar assim (e das mães que não têm
a quantidade de leite desejada pelo governo), continua permitida
a fabricação, venda e uso de mamadeiras –
mas é ilegal falar que elas existem. Não está
claro qual o problema que foi resolvido com essa lei, mas se alguém
perguntar a respeito aos peritos em saúde pública
infantil provavelmente ouvirá que o Brasil tem uma das
políticas de aleitamento "mais avançadas"
do mundo.
A situação até que seria
razoável se esse tipo de coisa ficasse mais ou menos por
aí. Mas não fica. Rolam no Congresso Nacional, no
momento, mais de 200 diferentes projetos de lei destinados, na
visão de seus autores, a fazer o bem; todos eles estabelecem
algum tipo de proibição ou de limitação
à publicidade de produtos ou serviços. Fora do Congresso,
a única instância autorizada pela Constituição
a legislar sobre o tema, autoridades estaduais têm as mesmas
ambições de criar regras sobre o que pode e o que
não pode ser dito. O estado do Paraná, por exemplo,
acaba de proibir que seja exposta em seu território qualquer
peça de propaganda com palavras em idioma estrangeiro,
a menos que esteja acompanhada de tradução. A decisão,
desde logo, causa algumas sérias dificuldades de ordem
prática. Como faz, por exemplo, um comerciante de computadores
que precisa utilizar a palavra software num cartaz a ser colocado
em sua vitrine? O texto da lei não apresenta nenhuma sugestão
a respeito do procedimento a seguir.
O bonito, no caso, é que a própria
lei que cria a proibição utiliza, logo no seu artigo
1º, uma palavra em idioma estrangeiro, caput, e não
faz tradução nenhuma, o que, tecnicamente, deveria
sujeitar o governo estadual a uma multa de 5 000 reais –
ou até 10 000, talvez, se for considerado que o caso é
de reincidência. É para lá de esquisita, também,
a sintaxe utilizada na redação da lei. "A tradução",
escreve-se ali, "deve ser do mesmo tamanho que as palavras
em outro idioma expostas na propaganda" – ou seja,
o governo do Paraná, tão preocupado com as línguas
estrangeiras, não notou que seu principal problema, por
enquanto, é mesmo com a língua portuguesa.
Tudo isso fica menos cômico quando se
considera que a cada medida desse tipo a autoridade pública
não apenas vem encher a paciência do brasileiro com
mais uma interferência inútil em seu cotidiano; comete,
igualmente, uma agressão contra a liberdade de expressão.
É inevitável. Todas as vezes que se escreve alguma
lei sobre questões nas quais a liberdade de expressão
está envolvida, o cidadão fica menos livre para
se exprimir; não se conhece, na experiência humana,
nenhum episódio em que tenha acontecido o contrário.
Outra consequência dessas tentativas de regular cada vez
mais coisas é a criação de uma teia de obrigações
na qual já não basta que o indivíduo obedeça
à lei comum e respeite os direitos dos outros – ele
precisa, também, levar uma vida considerada virtuosa e
ser protegido de si próprio. Deve consumir alimentos com
a quantidade correta de nutrientes e, de preferência, orgânicos.
Não deve andar de automóvel. Deve considerar que
vegetais como uma árvore, por exemplo, são titulares
de direitos. Não deve tomar banhos com duração
superior a três minutos, para não esgotar as reservas
de água doce do planeta. Deve beber com moderação.
Não deve assistir a programas de televisão (ou ler
livros, ver filmes, ouvir músicas) que visem à obtenção
de lucros comerciais. Deve, ao fim da linha, morrer no peso ideal.
Trata-se de um mundo cada vez mais correto,
no papel – e cada vez mais chato, na vida real.