| Veja a íntegra da exposição
de Luiz Eduardo de Mello Soares, Secretário Nacional de Segurança
Pública, no Seminário Alcoolismo& Violência,
promovido pela Comissão de Seguridade Social e Família
da Câmara dos Deputados, em Brasília, em 3 de setembro
de 2003.
É um prazer estar participando deste debate, exemplo de
democracia, de pluralismo. Seria conveniente que expressasse, desde
logo, os valores a partir dos quais me refiro. Falo pessoalmente,
mas falo também como Secretário Nacional de Segurança
Pública.
Filio-me à uma tradição libertária
da filosofia política que encontra em John Stuart Mill uma
referência fundamental. É curioso que alguém
que se defina como libertário, herdeiro das experiências
de 1968, e possa, ainda assim, se interessar pelos temas de polícia,
mergulhar na área de segurança pública, converter-se
no Secretário Nacional de Segurança Pública.
Mas acho que a compatibilidade é perfeita.
John Stuart Mill nos ensinou e, antes dele, alguns patronos da
nossa tradição democrática nos legaram a compreensão,
de que a liberdade é um valor inestimável, um patrimônio
de todos nós. Certamente, um patrimônio mais relevante
da nossa tradição civilizatória. A liberdade
é tão importante, tão significativa, tão
fundamental, tão radicalmente essencial, que ela deve estender-se
universalmente, o que implica que ela se auto-restringe, no sentido
de que a liberdade à qual tenho acesso deve ser também
a liberdade a que meu próximo tenha acesso.
Se a liberdade deve ser, portanto, a nossa referência, ela
deve ser referência, no plural, de nós todos; ela deve
ser a referência universal. Isso importa restrições
aos indivíduos e à liberdade individual, em nome,
entretanto, da própria liberdade.
As leis são regulamentações que nos orientam
supostamente na direção do cumprimento desse dever
e dessa fidelidade axiológica ou valor ativo. E as polícias
podem ser instrumentos extraordinários, democráticos,
instrumentos institucionais de preservação desse nosso
grande patrimônio civilizatório, a liberdade, que são
os direitos circunscritos pela própria liberdade.
Desse ponto de vista, devo dizer — e também recorrendo
à minha formação profissional, sou antropólogo
— que o álcool é parte das civilizações
humanas. Não há cultura conhecida que não utilize
de alguma forma o álcool como uma substância associada
a momentos, sobretudo a momentos rituais, momentos de celebração,
como já foi assinalado. Também é um elemento
importante da nossa cultura, da cultura ocidental moderna, da cultura
brasileira em particular.
Devemos, portanto, reconhecer que se trata de um convívio
prolongado, permanente e destinado a subsistir. Não podemos
nos dar ao luxo de pensar que um sujeito — cultura A, B ou
C — se disporia diante do objeto álcool com a possibilidade
de exorcizá-lo da nossa existência, de contê-lo,
reprimi-lo, retira-lo da nossa agenda de hábitos, de práticas,
de tradições. O álcool é companheiro
de viagem, é o parceiro da viagem da humanidade.
Como boa parte dos parceiros da humanidade, implicando riscos,
conseqüências graves e, ao mesmo tempo, possibilidade
de prazer, de fruição, de congraçamento, de
experiência de sociabilidade etc. Não há um
conteúdo definido, limitado. O álcool é parte
da experiência humana, e será sempre parte da experiência
humana.
Acho que podemos aperfeiçoar as formas pelas quais, entretanto,
lidamos com o álcool, certamente. E estamos discutindo justamente
as formas mais adequadas de aperfeiçoar a nossa relação
coletiva com essa substância, que é atraente e, ao
mesmo tempo, arriscada, problemática e que merece, portanto,
o nosso cuidado coletivo. É objeto da nossa atenção
porque somos responsáveis, cada um, nas suas respectivas
atribuições.
Desse ponto de vista, acho, entretanto, que devemos sublinhar quão
relevante é a nossa experiência com o álcool.
Acho que podemos aprender muito dessa experiência. Ela é
bem sucedida? Em parte, sim; em parte, não. Conhecemos os
dramas, as tragédias vinculadas ao álcool. A sociedade
brasileira traz essa marca, essa ferida, uma chaga aberta nessa
relação. As outras culturas têm as suas próprias
experiências. Podemos falar sobre isso em seguida.
Por outro lado, a sociedade brasileira conseguiu restringir os
efeitos nocivos dos efeitos perversos — restringi-los e circunscrevê-los
— e passou a pautar sua relação com o álcool
de uma forma eminentemente construtiva, positiva, inspirada na auto-regulamentação.
Quero dizer que aprendemos com a nossa experiência e que,
apesar dos preços que pagamos, e que são elevados,
há muita vantagem na perspectiva aberta e democrática
com a qual lidamos com essa substância arriscada e atraente,
que é o álcool.
Com isso, estou sugerindo que extraiamos dessa experiência
arriscada, problemática, custosa, mas basicamente construtiva
e positiva, lições para que aprendamos a lidar com
outras substâncias, com as quais temos muita dificuldade de
lidar: as drogas, de uma maneira geral, que ainda constituem um
tabu para nossa discussão pública. Temos não
de conduzir o álcool na direção do estigma
das drogas, mas aprender com a experiência civilizada de regulamentação
e auto-regulamentação na relação com
a droga — aprendermos com essa experiência para aplicarmos
algumas lições nas nossas relações com
substâncias psicoativas, que constituem até hoje tabu,
e o que constitui tabu se tem subtraído da consideração
mais racional de políticas públicas.
Essas são algumas considerações introdutórias.
A ingestão do álcool está associada a uma
série de fenômenos, muitos negativos e violentos, particularmente
na violência doméstica e no acidente de trânsito.
E sabemos quão importantes esses fenômenos são.
E aqui as relações estão bem estabelecidas.
Há pesquisas nacionais e internacionais, que demonstram de
modo insofismável essa relação.
Eu gostaria, entretanto, de mencionar um ponto importante, sobretudo
no que diz respeito à violência doméstica. As
pesquisas mais sofisticadas demonstram que não há
uma relação, entretanto, de causa e efeito. Isso é
importante para que comecemos a analisar mais profundamente a relação.
Em primeiro lugar, vamos reconhecê-la: há uma associação,
é indiscutível, os dados são eloqüentes.
Por outro lado, dando um caráter mais complexo a essa relação,
vamos divisá-la sob a relação não de
causa e efeito, mas de condicionamentos recíprocos, o que
é muito mais delicado, o que exige um approach mais sofisticado.
Quero dizer o seguinte: os homens batem nas mulheres — ponto.
Recorrem ao álcool para fazer aquilo que aprenderam a fazer
e que estão destinados a fazer por uma série de condicionantes
psicológicos e sociais. O álcool é uma alavanca,
é um recurso utilizado por aqueles que já têm
propensão e se relacionam com as mulheres sob a égide
da violência, definem a relação com a de outro
gênero na base da violência. O álcool não
conduz um agente saudável, que se relaciona com a sua esposa,
mulher ou companheira de um modo saudável, à violência
de gênero. Alguém que é violento recorre ao
álcool e — sob o efeito do álcool — realiza
esse potencial, o que é muito diferente.
Portanto, não podemos atribuir ao álcool a responsabilidade
pela violência doméstica. Mas o álcool é
um facilitador e, portanto, deve ser objeto da nossa preocupação
e do nosso cuidado. Mas é importante evitar a atribuição
desse papel de agente a uma substância que funciona, de fato,
como um mediador.
Esses estudos estão bastante fundamentados e permitem-nos
compreender
melhor essa relação, porque, senão, a associação,
a contigüidade, a metonímia, a relação
de co-presença nos conduzem à falsa conclusão
de que o álcool é que produz a violência doméstica.
Não se trata disso.
No caso da violência no trânsito sob a utilização
do álcool e seu resultado desastroso, isso traz, como conhecemos,
a irresponsabilidade cívica, que ainda é lamentavelmente
a nossa prática usual, ainda é a nossa condição.
Acho que estamos longe de compartilhar com a sociedade brasileira,
de forma suficiente, a magnitude e a extensão aprofundadas
desse drama que é a violência no trânsito.
O Brasil, por ano, perde em vidas quase o que os militares americanos
perderam em toda a Guerra do Vietnã, nesse inferno que é
a selva do nosso trânsito. Somos absolutamente irresponsáveis
e lidamos com isso como se fosse parte da natureza: o Brasil é
um país de abundância natural, de flores, de cores,
de amores; é o País do Futebol, do Samba, e é
também um país em que 50 mil pessoas morrem por ano
no trânsito, como se isso fosse parte da nossa condição
natural.
Acho que já passou o momento de, junto à sociedade,
levarmos uma mensagem muito mais forte, que comece na escola e que
seja conduzida pelos meios de comunicação de massa
e que se concretize na polícia, no tratamento adequado da
polícia, na aplicação rigorosa das leis, para,
de fato, revertermos esse quadro, porque, aí, vamos contar
com formação cultural, educação, campanhas
e com a repressão, a utilização das leis que
existem.
Os pontos aqui salientados relativamente à legislação
são interessantes.
De fato, essa também é a visão do Ministério
da Justiça, da Secretaria Nacional de Segurança Pública.
O Brasil não precisa de mais leis. Sou partidário,
por exemplo, de regulamentação restritiva dos armamentos,
sou partidário de que haja aqui e ali mais rigor em aspectos
específicos, mas o Brasil não precisa fundamentalmente
de leis — precisa praticar as leis que existem. Temos leis
suficientes. A nossa barbárie e a nossa insegurança
pública não decorrem de carência legal. O problema
não é normativo. A barbárie decorre da impunidade,
da nossa incapacidade de fazer com que as leis sejam aplicadas.
E essa incapacidade envolve uma crise institucional do nosso aparelho
de segurança pública. Não podemos esconder
o sol com a peneira.
Nosso problema, fundamentalmente, é corrigir, aperfeiçoar,
reformar profundamente as nossas instituições de segurança
pública para fazermos com que as leis sejam cumpridas, e,
paralelamente, trabalhar a sociedade para que haja uma sensibilidade
mais responsável, sobretudo nessas áreas que são
chave, afinal de contas.
Com esse espírito, apresentarei muito brevemente o quadro
da criminalidade no Brasil, para identificar as associações
possíveis com o álcool. Temos três principais
matrizes da criminalidade no Brasil, sobretudo quando focalizamos
a criminalidade letal, que é a mais grave e que merece a
nossa atenção.
Uma matriz conhecida é a do tráfico de armas e drogas
— as drogas financiando as armas e as armas intensificando
a violência associada aos atos criminosos e expandindo, inclusive,
seu número e sua qualidade. Há a infiltração
nas instituições públicas do crime organizado.
A outra matriz é a da pistolagem, muito comum ainda em Estados
como o Espírito Santo, Estados do Nordeste, Estados do Norte.
A pistolagem envolve a profissionalização do assassinato,
do homicídio ou do homicida, carreiras profissionais e negociações
com interesses privados locais que fazem uso dessa solução
bárbara.
Vejam: para cada matriz há um conjunto de terapias ou de
políticas públicas. Para a terapia do tráfico,
temos de trabalhar com a qualificação dos aparelhos
de segurança pública, sobretudo da inteligência,
com capacidade de interceptar a dinâmica da lavagem de dinheiro
que, evidentemente, realimenta o processo com intervenções
preventivas inteligentes, sobretudo focalizando a juventude vulnerável
para que não seja atraída, seduzida pelo tráfico
e o realimente ou o amplie constantemente. Há a necessidade
de um conjunto preventivo e repressivo qualificado para que enfrentemos
adequadamente essa segunda matriz.
A outra matriz da pistolagem exige polícia decente e um
pouco de inteligência, investigação. É
muito fácil e simples lidar com isso, até porque o
problema não se reproduz, é mais ou menos estático.
Identificando-se os pistoleiros e os assassinos, eles são
detidos, a menos que haja renovação, que é
demorada, o problema se encerra. No Espírito Santo, por exemplo,
o grande êxito decorre desde a missão especial do segundo
semestre do ano passado até a gestão integrada que
constituímos este ano, a sucessão de êxitos
com as terríveis tragédias que são as pressões
de resistência. O grande êxito marca a virada do Espírito
Santo.
Outros Estados do Nordeste fazem esforços consideráveis.
É fácil vencer isso com um pouco de competência
e seriedade no trabalho policial.
A terceira matriz — aqui encontramos o nosso problema —
são os conflitos interativos que, por condições
muito particulares e pelo excesso de disponibilidade das armas,
se convertem em tragédias. Em São Paulo, por exemplo,
mais de 60% dos homicídios dolosos são perpetrados
com base em relação passional descontrolada, num conflito
trivial. São crimes de origem — entre aspas —
“fúteis”.
Motivos absolutamente fúteis: alguém gritou “Corinthians”.
Outro, “Palmeiras” ou alguém olhou para o outro
de uma forma inadequada, segundo os padrões locais, enfim,
alguém aumentou o rádio impropriamente. São
crimes entre conhecidos que se dão quase sempre em certos
cenários. Nesse caso, além da disponibilidade excessiva
de armas que constitui o fator decisivo, é óbvio,
o álcool joga um papel que, entretanto, deve ser compreendido
no contexto. Não é o álcool que assassina.
Ele cria condições que facilitam a combustão.
Os outros ingredientes estão ligados. Por isso, algumas medidas
chocantes para a nossa sensibilidade libertária ou liberal
democrática, como controle de horário de venda, tão
bem sucedido. Podem sê-lo em alguns casos. Mesmo sendo chocante
do ponto de vista de nossa sensibilidade de valor ativo, eventualmente
podem ser recursos extremos a serem adotados topicamente na falta
de uma política de escala, enquanto a mesma não se
implementa de forma adequada. Por exemplo, o caso Diadema, entre
outros, é célebre. Uma redução de 40%
dos homicídios dolosos em 6 meses, por conta de uma série
de iniciativas, mas também pela imposição de
um horário para certos bares que eram palco de problemas
com a venda de bebidas alcoólicas. Isso mostra que, em alguns
casos, excepcionalmente, feito um diagnóstico apropriado
na ausência de controle mais efetivo e abrangente, intervenção
desse tipo pode ser legítima ainda que fira os nossos, os
meus princípios. Eu gostaria que isso nunca fosse necessário.
Acho que é justificável temporariamente enquanto não
se transformam as condições que propiciam aquelas
conseqüências. Estamos falando de uma matriz que, na
realidade, é muito importante. É difícil combatê-la.
A polícia não pode enfrentá-la sozinha por
conta de sua característica cartelizada, atomizada e de difícil
prevenção policial. Difícil prevenção
policial, mas não necessariamente difícil prevenção
social.
Nós temos cenário, script, personagens e as conclusões
que conduzem os dramas que se verificam nos cenários, com
esses personagens, scripts ou roteiros, em certos horários
e certos dias da semana. No Rio de Janeiro mais de 50% dos homicídios
dolosos se dão na área territorial sob a responsabilidade
de 10% das delegacias distritais. São 123 delegacias distritais
no Estado; 12 constituem o palco dos problemas, concentram os problemas
letais.
Refiro-me aos crimes mais graves. Ainda nessa área identificamos
algumas microrregiões nas quais os problemas se concentram.
Horários: de sexta-feira para sábado e de sábado
para domingo. Isso é regra não só no Brasil.
Lugares ermos, bares abertos, drogas, álcool, disponibilidade
de armas. Temos os ingredientes: a comunidade afasta-se de local
ermo, escuro e, portanto, perigoso.
Quais políticas têm sido aplicadas com êxito
dentro e fora do Brasil, antes que transformemos o País?
É claro que um dia, no dia dos nossos sonhos, quando o Brasil
não precisar contar com esses palcos, com esses cenários,
o quadro mudará por completo. Mas não podemos cruzar
os braços à espera das mudanças macroestruturais
do Brasil até que toda iniqüidade seja solucionada.
Precisamos de respostas rápidas. Há programas baratos
que salvam vidas. Não curam as causas derradeiras, últimas
das quais até pouco sabemos, mas certamente salvam vidas.
Precisamos adotá-las em nome da vida. O que funciona no
Brasil e fora dele? Se conhecemos o palco, o script, o personagem,
ocupamos o palco, mudamos o script, alteramos o cenário.
Às vezes, uma luz, uma mudança de fluxo viário,
a convocação da comunidade para que se aproprie daquele
espaço do qual se afastara por medo; às vezes, um
conjunto de iniciativas culturais, festas, esportes, de madrugada,
à noite, dando protagonismo aos jovens que eram exatamente
os que se sentiam abandonados, rejeitados... Isso é capaz
de produzir diferenças consideráveis. As experiências
são renovadas e, de fato, trazem êxito. Isso não
resolverá o problema, mas, repito, salvará vidas.
O álcool tem um papel, mas seria evidentemente uma abordagem
simplificadora destacar o álcool e isolá-lo como elemento
detonador num contexto que é tão mais grave. Eventualmente,
há algum controle sobre venda em alguns espaços marcados
pelas tragédias. Isso pode ocorrer se os diagnósticos
comprovarem que há esse tipo de vinculação,
a fim de que haja alguma disciplina e de que comecemos a controlar.
Isso pode ser objeto de discussão com as prefeituras, mas
não que se constitua numa solução ou política
global.
Do ponto de vista da política global, é importante
evitar satanizar o produto e identificar, de fato, a responsabilidade
social. Os crimes são perpetrados pelos seres humanos em
certos contextos. Às vezes, recorremos a um ou outro produto
até para nos lançarmos na aventura autodestrutível
e destrutiva. São mediações. Quando muito disponíveis,
fica mais fácil a viagem destrutiva.
Podemos disciplinar o acesso em certas condições.
Sobretudo, acho que sempre, com respeito aos princípios libertários
radicais, devemos evitar qualquer forma de controle autoritário
etc., mas devemos, isso sim, o que é absolutamente compatível
com os princípios liberais e libertários, os mais
radicais, cobrar a responsabilidade de quem abusa. Não pelo
abuso em si, é um problema individual, mas quando se agride
e desrespeita a liberdade do outro.
Alguém tem relação problemática com
o álcool?! Devemos oferecer apoio para que essa relação
seja superada porque o que está em jogo é a relação
da pessoa para consigo mesma pela mediação do álcool.
Precisamos apoiar certamente como outros países fazem. Temos
boas experiências nessa área. Se houver utilização
de álcool e a direção de um veículo,
essa atitude criminosa de absoluta irresponsabilidade deve ser punida
com todo rigor.
Nesse caso, devemos ser repressivos à enésima potência
dentro das determinações legais; podemos, quem sabe,
até tornar a lei mais dura para que possamos de fato sinalizar
que isso é absolutamente inaceitável.
Considerando a enorme sensibilidade social que está expressa
nas exposições que antecederam à minha, seja
por parte dos anunciantes, seja por parte dos produtores, teríamos
muito a ganhar se nos uníssemos, buscando formas inteligentes
de passar para a sociedade, usando até as marcas que já
tenham esse diálogo mais franco, direto, persuasivo com a
sociedade, aproveitando essa boa vontade e fluência de comunicação
das próprias marcas, que vamos virar uma página, em
que usufruir dos prazeres do álcool, utilizá-lo etc.
nada tem a ver com atitudes irresponsáveis. Destacar o que
pode ser um momento de curtição, de celebração,
de curtir o álcool do que deve ser motivo de vergonha e de
abjeção pública: a sua utilização
irresponsável.
Temos um poder extraordinário, que é a comunicação.
O fato de o Brasil estar em rede, estar desperto e sensível
à comunicação confere à comunicação
um potencial extraordinário.
Portanto, são sobretudo duas grandes responsabilidades nossas:
imaginar campanhas em que estejamos todos juntos para diferenciar
o consumo da utilização do álcool em situação
que implique agressão a terceiros — e aí não
me refiro a abuso, porque essa é uma questão ainda
individual; refiro-me à utilização inapropriada,
associada, por exemplo, à direção de veículos
e coisas do tipo —, campanhas contra a violência doméstica,
em que sejamos muito duros. Aí não precisamos mencionar
o álcool; ele não precisa estar presente. Mas, quem
sabe, com a parceria das indústrias, poderemos juntos levar
à sociedade não só uma mensagem que difunda
a consciência sobre a violência doméstica e informações
sobre as redes que estamos procurando constituir Brasil afora de
proteção às mulheres e às vítimas
de violência doméstica, mas também uma campanha
em que possamos mostrar que respeitar a liberdade de cada um corresponde
a fazer com que cada um compreenda a responsabilidade associada
à própria fruição da liberdade.
Por último, digo-lhes que é responsabilidade também
da Secretaria Nacional de Segurança Pública enfrentar
o grande dilema da renovação da reforma das polícias;
é responsabilidade do Governo Federal, do Ministério
da Justiça. O Ministro Márcio Thomaz Bastos tem insistido
nesse ponto. O Governo Lula não desloca para os Estados essa
responsabilidade, chamando-a para si, com todas as dificuldades,
entendendo que os riscos políticos são imensos, porque
não vai ser fácil alterar o quadro, que é o
que conhecemos.
Estamos buscando redefinir o Fundo Nacional de Segurança
Pública, transformando-o num instrumento de indução,
trabalhando com os Estados, respeitando sua autonomia, mas exigindo
e cobrando a elaboração de políticas que demonstrem
de fato afinidade com uma agenda de reformas, que é o que
se impõe hoje ao País. Se pudermos, com o Sistema
Único de Segurança Pública que estamos tentando
constituir Brasil afora, que é uma rede de integração
entre as polícias, uma rede que busca qualificá-las
em seus diversos aspectos, se pudermos trabalhar nos Estados, por
meio do fundo, com a indução positiva, talvez sejamos
capazes de dar um salto de qualidade, e esse salto vai significar,
na ponta, a implementação das leis que já temos
e estão aí para ser implementadas.
Muito obrigado.
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