| Por gosto ou preconceito, aumentou recentemente
o questionamento sobre o papel da publicidade na educação
ou deseducação do povo brasileiro.
Por gosto, efetivamente, em razão da qualidade com que
no primeiro momento do país industrial e urbano, fomos capazes
de desenvolver uma publicidade de alto nível, boa como aquela
que os velhos países cansados de guerra fazem; preconceito
porque, afinal de contas, insiste-se com falsa idéia de que
somos um país de coitadinhos, isto é, quase 180 milhões
de hipossuficientes, gente que não deveria estar solta nas
ruas diante do perigo permanente de ser atropelada pelos carros,
que, aliás, dentro da mesma ótica, outros hipossuficientes
produzem, sendo, por conseqüência redutora, suficientes
nesta terra cabrália apenas aquela percentagem mínima
que está pousada à direita do paraíso, a elite.
Por gosto, constata-se que o cinema moderno do país, nascido
das cinzas do desmonte cultural do período Collor, surgiu
da publicidade, que manteve na ativa os bons diretores e criou campo
para o aprendizado de uma nova geração que começa
a fazer história nas telas do mundo; por preconceito, azucrina-se
a paciência dos legisladores pedindo controle sobre a produção
de anúncios, financiadores de baixarias televisivas, quando
não baixarias eles também, naturalmente.
Na realidade, fora dos extremos, a publicidade daqui ou de algures
é meio moderno, de linguagem especialíssima criada
pela observação da realidade cotidiana. Tem, na forma
e no conteúdo, muito do que se expressa genuinamente, transpondo
as barreiras do formalismo, e, muitas vezes, criando sublinguagens
que, incorporadas, tornam-se, com o tempo, regra e norma dita convencional.
Ou, se preferirem, regra e compasso de comportamento social.
Penso que sempre foi assim, pelo menos nos tempos da necessidade
de ofertas – religiosas, primeiro; políticas, depois;
e, agora, de produtos e serviços do mercado, esta nova religião
na qual, queiramos ou não, fomos lançados pela tecnologia
que alterou a nossa relação com o que nos cerca. Um
exemplo clássico: a maioria dos países com elevada
taxa de alfabetização nasceu de uma escola educacional
chamada pietismo, que tem por base a técnica de alfabetizar
para que a bíblia seja lida, única condição
que o calvinismo reconhece como asseguradora da salvação
das almas.
Modestos nesta questão, esquecida a vaidade em alguns núcleos
criativos das agências, e sem qualquer fundamentalismo, nós
publicitários estamos, pelo menos há 25 anos, comprometidos
com a educação da forma mais ampla, porque assim decidimos
no Código Brasileiro de Auto-regulamentação
Publicitária, velado com competência por este Conar:
“Art. 6º – Toda publicidade deve estar em consonância
com os objetivos do desenvolvimento econômico, da educação
e da cultura nacionais”.
Somos, afinal, produtos de gente como Orígenes Lessa, Miguel
Gustavo, Luis Fernando Verissimo, o que existe de mais afinado com
a verdadeira cultura brasileira.
Publicitário e jornalista, o autor é presidente
da Contemporânea e da Associação Brasileira
de Propaganda. No Conar, é membro do Conselho Superior do
Conar e presidente da 3ª Câmara |