Editorial de O Globo considera ação
da Anvisa inconstitucional e defende a auto-regulamentação
para a publicidade de bebidas alcoólicas.
A causa é meritória, mas a forma
encontrada pelo governo para defendê-la pode ser considerada
desastrosa, ilegal e inócua.
Que o alcoolismo é um problema, e não
apenas no Brasil, todos sabem. Está, portanto, correto
o ministro da Saúde, José Gomes Temporão,
em se preocupar com a doença, causa de incontáveis
dramas pessoais e familiares, bem como fonte de gastos pesados
no SUS. O erro do governo é resolver combater o mal pelo
cerceamento da publicidade - e da forma como decidiu fazê-Io,
por meio de uma resolução da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa), ligada ao ministério.
Antes de qualquer debate sobre o mérito
da questão, o instrumento utilizado pelo governo é
inconstitucional, como atestam juristas e parlamentares, até
da base aliada.
O parágrafo único do art. 170 da
Constituição garante a liberdade no exercício
da atividade econômica, salvo em casos definidos por lei.
Assim, a resolução da Anvisa é juridicamente
inconsistente e terá efeito nulo. Se o governo quiser censurar
anúncios, só por lei.
O governo preferiu tentar o caminho acidentado
do fato consumado, quando teria, e tem, todas as condições
de entender-se, sem conflitos, com anunciantes e agências
de publicidade.
Este é um setor organizado e que pratica
há muitos anos, com especial competência, a auto-regulação.
Para Isso foi fundado, com apoio de todos, inclusive dos veículos
de imprensa, o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária, uma entidade que opera constantemente, e
onde, uma vez por mês, no Rio e em São Paulo, são
julgadas, em sessões abertas às partes envolvidas
em cada processo, inúmeras peças publicitárias
denunciadas por consumidores, concorrentes e até pelo próprio
Conar. Mesmo não tendo o Conar poder de Justiça,
sua legitimidade faz com que anúncios sejam retirados de
circulação ou alterados para atender aos julgamentos
e a decisões liminares da sua diretoria.
Já existe, por sinal, uma série
de normas específicas para a publicidade de bebidas, destacando-se
as de baixo teor alcoólico, como a cerveja, agora na mira
do governo. Por que não conversar a partir de regras já
em vigor?
No diálogo, poderá até ser
que o ministério entenda que jogar sobre os ombros da publicidade
a culpa pelo alcoolismo equivale a condenar anúncios da
indústria automobilística por causa da violência
no trânsito.