| Caro Ruy Lindenberg
Nem super-herói, muito menos “paladino da moral e
dos bons costumes”, o Conar apenas reflete a sociedade brasileira.
Na verdade, quando você e outros profissionais de criação
tecem críticas a algumas das nossas decisões recentes
– e como publicitário, confesso minhas simpatias por
tais queixas – estão imprecando contra o próprio
mercado publicitário e, em última instância,
contra a sociedade brasileira.
Explico: não é o Conar quem delibera sobre as representações
éticas; é o seu Conselho de Ética, formado
por 140 representantes indicados pelas entidades de anunciantes,
agências e veículos e mais representantes de consumidores
e de profissionais de criação – estes numa robusta
representação.
A intenção do Conar ao estruturar desta forma o seu
Conselho de Ética é exatamente criar em cada uma das
suas seis Câmaras um microcosmo do mercado e da sociedade.
Homens e mulheres de todas as faixas etárias, profissionais
de publicidade ou não, exercitam a cada sessão de
julgamento o contraditório. As partes envolvidas têm
amplo direito de defesa, podendo se manifestar frente aos conselheiros
e tentar convence-los da justeza dos seus pontos de vista.
E põe contraditório nisso! Cada julgamento é
bastante aguerrido. Os pontos de vista livremente expostos se enredam
em numerosas considerações. Como há até
duas instâncias de recurso, as decisões podem ser revistas.
Desnecessário dizer que sempre haverá vagas para profissionais
de criação no Conselho de Ética, de forma que
você e seus colegas poderão comprovar a profundidade
dos debates em torno de cada caso e quanto tempo e trabalho demanda
o Conselho de Ética de seus integrantes que, importante lembrar,
dedicam-se a ele de forma inteiramente voluntária e sem qualquer
remuneração.
Ninguém em sã consciência pode acusar o Conselho
de Ética de conservadorismo. O que não podemos é
contrariar o mercado e a sociedade e fechar os olhos a determinadas
abordagens na publicidade apenas porque elas são inteligentes
e inovadoras. Seria suicídio puro e simples.
É você próprio quem observa que a sociedade
mudou, com “conquistas sociais importantes, como maior respeito
pelas minorias, mais voz ativa para novos segmentos, o reconhecimento
crescente dos direitos do consumidor, etc.” É isso
mesmo, caro Ruy, tornamo-nos, todos nós, prisioneiros da
sociedade, uma sociedade que anseia por se expressar.
Pode ser um blog, uma pichação, uma carta ao jornal,
um protesto junto ao SAC. A sociedade quer – exige –
se expressar e, felizmente, não faltam canais para isso.
Podemos até ponderar que há exageros flagrantes, como
se fosse uma espécie de vingança de pontos de vista
longamente silenciados. Exageros, portanto, são tão
compreensíveis quanto inevitáveis e que bom que eles
se processam de forma civilizada. Nem sempre tem sido assim no mundo
de hoje.
Neste cenário onde todos têm razão e podem
expressa-la, nós, publicitários, apenas pagamos o
preço da extraordinária visibilidade e proficiência
do nosso canal de comunicação.
Como disse, também não gosto de tudo o que é
“politicamente correto” mas me sinto aliviado que este
controle sobre o que criamos seja exercido pela sociedade e não
por um regime totalitário ou por alguma mente que se considera
iluminada.
Por isso, não acho justo que você taxe a ação
do Conar de “fogo amigo” e fico francamente ofendido
quando usa o termo “censura”. Você deveria saber
que o Conar não aceita – na verdade tem horror à
censura. Você deveria saber também que a publicidade
está sob violenta pressão das autoridades do Executivo
e de Legislativo onde tramitam – você próprio
os citou - mais de duzentos projetos de lei proibindo categorias
inteiras de produtos de serem anunciadas, inclusive automóveis.
Você sabe, por exemplo, que há projeto de lei proibindo
publicidade de todo e qualquer tipo de alimentos antes das 21h?
Que outro propõe o banimento da publicidade em TV por assinatura?
Outro ainda proíbe publicidade de produtos infantis antes
das 21h?
O Conar, por sinal, por delegação expressa do mercado
publicitário, luta diariamente contra estas pressões,
atuando em Brasília e conquistando importantes vitórias
para a atividade desde a sua criação, há 25
anos.
Não estranho que você reivindique para a publicidade
o mesmo grau de liberdade que vige – felizmente – para
o conteúdo editorial dos diversos meios de comunicação.
Mas você deveria conhecer a lição basilar de
Caio Domingues, redator inspirado do Código Brasileiro de
Auto-regulamentação Publicitária, segundo a
qual a diferença entre publicidade e conteúdo editorial
dos veículos é que a publicidade nunca é convidada
a entrar na casa de ninguém.
Anúncios impressos ou eletrônicos sempre pegam carona
em um jornal, revista ou programa nos quais os consumidores sabem
o que vão encontrar. Mas nenhum deles sabe se o anúncio
A ou B estará inserido em seus intervalos e páginas.
Assim, temos de guardar dupla ou triplamente a prudência e
o respeito que um visitante inesperado deve manter sempre que entra
na casa de alguém. É por isso que há 200 projetos
de lei contra a publicidade e nenhum contra a liberdade de imprensa.
Claro que parece injusto a quem, como você, cria peças
de especial brilho mas pense nas alternativas. Você gostaria
de se acotovelar com 200 novas leis restritivas? Gostaria que uma
agência governamental baixasse um regulamento técnico
especificando que no seu anúncio não pode haver, por
exemplo, comparações?
Estas são as alternativas à ação do
Conar e isso acontece não porque as autoridades são
malévolas mas porque a sociedade assim o exige, aqui e no
resto do mundo. Na Europa, a censura prévia – e aqui,
sim, o termo se aplica - às peças publicitárias
já é uma realidade largamente difundida. Você,
como profissional antenado que é, certamente constatou isso
em nosso Seminário Internacional sobre Auto-Regulamentação
Publicitária Comparada, realizado no final do ano passado,
na ESPM, em São Paulo.
Espero que você entenda e aceite estas ponderações
que, como tentei demonstrar, não são do Conar mas
do mercado publicitário e da sociedade como um todo e nunca
mais nos compare com censores pois o que recomendamos não
é censura e sim limites, limites fixados em comum acordo
por todos os entes do mercado publicitário, discutidos em
reuniões absolutamente abertas a que todos têm livre
acesso, inclusive os melhores criadores do Brasil.
É ótimo saber que há criativos inquietos,
não acomodados, que lutam para defender e ampliar a liberdade
de expressão corajosa, árdua e inteligentemente conquistada
em sucessivas batalhas pelas lideranças publicitárias
brasileiras nos últimos 30 anos. Apenas aconselho que você
e outros criadores foquem bem a mira de sua artilharia.
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