Roberto Civita, presidente do Conselho de Administração
do Grupo Abril, abriu o segundo dia do IV Congresso Brasileiro
de Publicidade. Em seu discurso, o executivo defendeu a atuação
do Conar.
"[A auto-regulamentação]
É um precedente de qualidade na gestão de conflitos
socialmente relevantes que funciona muito bem há algumas
décadas. Por que, afinal, deveríamos trocar isso
por algumas leis a mais? Como o País ficaria melhor com
isso? Como o cidadão em geral e os grupos de risco em particular
– cujos interesses são freqüentemente invocados
– teriam qualquer garantia adicional que nossa experiência
do Conar já não lhes dê?", questionou
Civita.
Veja, na íntegra, o discurso do executivo
durante o IV Congresso Brasileiro de Publicidade:
É uma honra e uma imensa satisfação
participar deste IV Congresso Brasileiro de Publicidade, reencontrando
tantos amigos. A imaginação e a competência
dos múltiplos talentos aqui presentes têm garantido
para a propaganda brasileira o respeito e reconhecimento no mundo
inteiro.
Acredito ser essa uma oportunidade única
para refletirmos sobre algumas questões que são
a essência de tudo que fazemos, não apenas como profissionais
do mundo da comunicação, mas também como
cidadãos responsáveis. São reflexões
sobre a democracia, a liberdade e a livre iniciativa. Sobre liberdade
de imprensa e a publicidade. Sobre a interligação
entre todas elas, seus limites, as ameaças que sofrem e
a responsabilidade de cada um de nós nesse processo.
A democracia implica no direito de escolher
os governantes sem coação, no predomínio
da vontade da maioria, na defesa da diversidade, dos direitos
das minorias e no respeito à dignidade humana. Ela garante
a vontade de ir e vir, de pensar, de falar, de opinar, de concordar
e de discordar, de fazer e de não fazer, de comprar e vender
e de tomar decisões a respeito do destino individual.
A liberdade de manifestação
do pensamento, além de se constituir num direito natural
do homem, é o pressuposto básico de todas as demais
liberdades: política, religiosa, econômica, de imprensa,
de associação e de todas as outras.
Quando alguém começa a exercer
uma dessas liberdades, torna-se cada vez mais difícil negar-lhe
as outras. Como disse há muitos anos o grande publicitário
norte-americano Bruce Barton: "O direito do povo de escolher
livremente seus alimentos, suas roupas, seus livros, suas casas
é a própria essência da democracia. Não
é por acidente que, no regime totalitário, não
há propaganda comercial. Desde o momento em que se permite
ao povo escolher livremente a qualidade, o estilo e o tipo de
artigos que cercam sua vida, não se pode mais impedi-lo,
permanentemente, de caminhar para o seu supremo objetivo que é
a escolha de seus governantes e do seu regime de vida".
Para exercer e manter esses direitos é
condição indispensável que a informação
também seja livre, como, aliás, garante a nossa
Constituição.
Precisamos lembrar, entretanto, que a livre
manifestação do pensamento e sua corolária,
a liberdade de imprensa, não constituem um fim em si mesmo,
mas sim um meio imprescindível para garantir a sobrevivência
de uma sociedade livre e democrática.
É igualmente fundamental levar em
conta que a livre iniciativa – associada a um bom sistema
educacional – é a fonte principal da geração
de riquezas e progresso de qualquer país no mundo de hoje.
E a publicidade – parte integrante e essencial das economias
livres – ajuda a incentivar a inovação, estimular
a concorrência, ampliar mercados e gerar empregos, alargando
assim os horizontes e o futuro das nações.
Como já afirmei inúmeras vezes,
existe uma indissolúvel interdependência entre democracia,
liberdade de imprensa e livre iniciativa, o conhecido tripé
que envolve uma das mais extraordinárias simbioses do mundo
moderno.
Não custa lembrar que a democracia
e a liberdade de imprensa dependem, para se manter, das informações
e da fiscalização que somente uma gama diversificada
de veículos independentes pode assegurar.
Por sua vez, os meios de comunicação
não subsistiriam sem a publicidade, que não existiria
se não houvesse a competição, que não
teríamos sem um sistema de mercado livre, que depende –
fechando esse círculo virtuoso e admirável –
da democracia e da liberdade para garanti-lo.
Assim, a publicidade é um dos pilares
da imprensa livre e independente. Sem ela, seria impossível
manter a quantidade e pluralismo dos meios de informação
que divulgam idéias, defendem pontos de vista diferentes,
denunciam a corrupção, estimulam o debate político
e assim se tornam, nas palavras de Ruy Barbosa, “as vistas
da nação”. Sem publicidade, repito, não
existiria uma imprensa vigorosa, uma imprensa que – sabemos
todos e os ditadores mais do que nós – é o
alicerce do primado da lei e de uma sociedade aberta.
O principal compromisso dos meios de comunicação
não é com o governo, os políticos, os anunciantes,
os amigos e nem com os acionistas, mas sim com seus diferentes
públicos: os seus leitores, telespectadores, ouvintes e
internautas. E com a verdade. É obrigação
do jornalista verificar os fatos. Ser responsável. Zelar
pela ética. Procurar manter a isenção. E
– sempre – fazer o melhor de que é capaz.
Quem "elegeu" os meios de comunicação,
quem lhes outorgou o direito de informar, criticar, opinar, investigar,
denunciar, divertir e servir? De um lado, ninguém os elegeu
(da mesma maneira que ninguém elege a igreja em que rezamos,
a universidade em que estudamos ou o supermercado onde nos abastecemos).
Do outro, todos os elegem a cada instante. A imprensa não
é um poder estruturado, erigido institucionalmente. O mercado
livre, este sim, é a fábrica das eleições,
usina permanente de opções. O mercado aberto e sem
constrangimentos gera uma multiplicidade de estímulos e
demandas que levam à concorrência intensa e constantemente
renovada. Esta é a eleição permanente —
dia-a-dia, programa por programa, edição por edição
de cada jornal, revista, canal de TV e emissora de rádio.
É também fundamental lembrar
que a imprensa não é mais o único meio de
acesso à informação: com a chegada da internet,
da digitalização de todos os conteúdos e
da telefonia celular, a multiplicação e pulverização
dos meios mudam tudo e tornam virtualmente impossível –
felizmente – regular ou controlar a disseminação
da informação e da propaganda.
Apesar disto, e por mais estranho que possa
parecer, continuam surgindo ameaças às liberdades
conquistadas e garantidas pela Constituição. Um
exemplo é o excesso de legislação que o Congresso
Nacional tenta impor à publicidade. Tramitam hoje mais
de 200 proposições para introduzir travas onde não
deveriam existir.
São projetos que, de diferentes maneiras,
buscam estabelecer restrições crescentemente mais
rigorosas à liberdade de expressão comercial. Atenção,
por favor: não são restrições à
produção, distribuição, consumo ou
mesmo à extração de carga tributária
adicional de uma determinada lista de produtos. Não. Trata-se
apenas de impedir que se faça a publicidade desses produtos
fabricados, comercializados e consumidos legalmente, como se,
sem a publicidade, o problema percebido deixasse de existir.
Evidentemente, não devemos –
a priori – condenar toda e qualquer restrição
à publicidade e nem equaciona-la com tentativas de limitar
a liberdade de imprensa. Há restrições à
publicidade que fazem sentido, como – por exemplo –
aquela referente à propaganda de cigarros adotada em praticamente
todos os países desenvolvidos. A própria Constituição
estabelece que é da alçada das leis federais impor
eventuais restrições à propaganda comercial
de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos
e terapias.
Mas não se pode admitir que o desejo
de proteger pessoas contra si mesmas ou de sanear todos os males
da sociedade com novas leis leve a absurdos como o da Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) ter decidido, por
conta própria, legislar sobre a publicidade de bebidas
e de medicamentos.
O conteúdo de suas propostas é
igualmente preocupante. Basta dizer que um regulamento da Anvisa
pretende agir sobre a “propaganda, publicidade, informação
e outras práticas" a respeito de alimentos com quantidades
elevadas de açúcar, gordura saturada, gordura trans
etc. Outro regulamento se refere à propaganda de informação
sobre medicamentos, “quaisquer que sejam as formas e os
meios de sua veiculação”.
Ou seja, temos aqui embutidas tanto a limitação
da publicidade como também da “informação”.
Significa isto que Veja teria que submeter previamente à
Anvisa uma reportagem sobre Viagra ou sobre Coca-Cola? Certamente,
ninguém deu esses poderes à Agência regulamentadora
em questão.
Outros projetos de lei, empenhados na defesa
da língua portuguesa, propõem que toda palavra em
língua estrangeira venha acompanhada da expressão
em português, tanto na mídia como na publicidade.
Teríamos que estar preparados, portanto, para explicar
palavras como "software", "marketing" ou "sayonara"
cada vez que forem mencionadas.
Há ainda projetos que proíbem
a publicidade no telefone celular, a publicidade de produtos infantis
e até anúncios que vêm do exterior, mesmo
traduzidos. Para não cansar, há um longuíssimo
etcétera.
Precisamos, portanto, de uma maneira melhor
para encontrar o equilíbrio necessário entre a liberdade
absoluta e a vontade de proteger todos contra tudo. Isto exige
bom senso e responsabilidade.
Para mim, a melhor resposta que já
encontramos nesta frente espinhosa é aquela do Conar. O
Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária
já nos dá, há 30 anos, uma esplêndida
demonstração de que os publicitários, veículos,
anunciantes e, finalmente, o cidadão, têm juízo.
A auto-regulamentação publicitária é
um desses casos de triunfo da cultura de boa fé que poderia
ser apresentada como um brilhante exemplo de convivência
pacífica e democrática de interlocutores que, ao
enfrentarem problemas comuns ou terem interesses conflitantes,
sentam à volta de uma mesa e resolvem suas pendências,
em benefício de todos e da comunidade.
É um precedente de qualidade na gestão
de conflitos socialmente relevantes que funciona muito bem há
algumas décadas. Por que, afinal, deveríamos trocar
isso por algumas leis a mais? Como o País ficaria melhor
com isso? Como o cidadão em geral e os grupos de risco
em particular – cujos interesses são freqüentemente
invocados – teriam qualquer garantia adicional que nossa
experiência do Conar já não lhes dê?
São perguntas incômodas que merecem respostas ponderadas.
Como disse a respeito da mídia, o
exercício da liberdade na publicidade pressupõe
o reconhecimento da sua responsabilidade para com a sociedade.
Quanto mais defendemos a liberdade – e temos que ser veementes
nessa defesa – maior o compromisso de sermos responsáveis.
Felizmente, a grande maioria dos meios de
comunicação, dos anunciantes e das agências
brasileiras vem dando demonstrações repetidas de
que não apenas sabem disso, como também o praticam
no seu dia-a-dia.
Numa sociedade que ainda guarda na memória
os tempos negros da ditadura e da censura, o futuro depende de
que o exercício dessas liberdades por todos nós,
como jornalistas, publicitários, homens de comunicação,
leitores, eleitores e cidadãos seja dosado pelo bom senso,
pelo autocontrole e, principalmente, pela responsabilidade. Ainda
que isto custe. Sobretudo se custar, como dizia Beuve-Méry,
fundador do Le Monde. Só assim será reforçado
esse círculo virtuoso da democracia, da livre iniciativa
e da liberdade de imprensa – fundamental para o País
melhor com que todos nós sonhamos.