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O LULA VIEIRA DEVE SER PROIBIDO?

Se algumas das deliciosas crônicas do Lula publicadas no Propaganda e Marketing fossem anúncios, possivelmente seriam suspensos pelas nossas Câmaras de Ética. Nem por isso o setor publicitário deixa de saboreá-las nos fins de semana.

Tal exemplo mostra de maneira didática a diferença entre a linguagem literária e a da propaganda.
O anúncio, seja ele impresso ou para televisão, entra na casa do consumidor (leitor, telespectador etc.) sem bater na porta nem pedir licença. É um cidadão que, de repente, aparece ao seu lado na sala de estar, tomando um uisquinho e usando suas chinelas. Por isso, no mínimo, tem de se comportar bem, usar linguagem adequada e não ficar contando lorotas a torto e a direito.

Quando isso acontece, o Conar pode proibir a entrada não apenas na sua, mas na casa de outras milhares de pessoas. Aliás, neste ano o Conselho está trabalhando a todo vapor, e nos dez primeiros meses do ano apreciou nada menos que 259 processos.

Com os meios de comunicação é diferente. Para começar, porque você elege qual jornal, revista ou TV deve comprar ou assistir. Assim, você também pode ler ou não os colunistas que lhe interessam e, como em um contrato, passa a aceitar o que eles escrevem e a maneira como se expressam.
Logo, não se deve confundir o conteúdo editorial com o conteúdo da publicidade. São coisas diferentes e como tal devem ser entendidas.

Para o editorial, a liberdade é a matéria-prima. Não apenas para o jornalista, mas para todos os que desejam se exprimir usando para tal os mais variados caminhos da comunicação, como, aliás, previu nossa Constituição, ao enterrar mais de duas décadas de regime autoritário.

Apesar de conhecido, o assunto sempre ressurge para nos assombrar, como prova de que os detentores do poder, seja qual for sua origem, não resistem a acessos de autoritarismo. Uma síndrome recorrente que transforma antigos censurados em candidatos a censores por acreditar serem donos da verdade, lembrando as lições de Gramsci quando fala da super estrutura a serviço do poder.

O Conselho de Jornalismo, a Ancinav e outros instrumentos que têm como objeto o controle não apenas da imprensa, mas de outras áreas culturais, não podem ser aceitos por uma sociedade que almeja ampliar os horizontes da expressão humana, e não limitá-los.

Nós, do Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária, estamos do lado da livre manifestação do pensamento e da liberdade de expressão comercial, e para tal desenvolvemos um Código respeitado e adotado internacionalmente, o que também nos qualifica a defender a expressão livre de todos os setores da comunicação não comercial.

Assim tem se comportado a entidade ao longo de seus quase 25 anos de existência, conseguindo o respeito da classe publicitária e também dos diversos níveis do poder com os quais interage. Apesar disso, ainda está longe o dia no qual as intervenções, tanto do Executivo como do Legislativo federais, levem em conta todos os artigos e anexos do Código. Também por isso a atividade do Conar, além de regulamentadora, deve continuar sendo didática, para explicar e convencer.

Explicar e convencer para preservar a criatividade e permitir a inovação e a liberdade de anunciar.
O Lula Vieira, que entrou neste artigo como Pilatos no Credo, também concorda com isso. Porque além de suas apimentadas crônicas, cria anúncios e é um dos mais eficientes conselheiros do Conar.

Luiz Celso de Piratininga é diretor-presidente da Adag Serviços de Publicidade e primeiro vice-presidente do Conar