Gilberto Dupas
Não existem capitalismo e economia de mercado sem propaganda.
E, por enquanto, não há alternativa visível
a esse sistema vencedor, capaz de manter em movimento eficiente
a engrenagem da economia global. A função principal
da propaganda é transformar em novos objetos de desejo
os produtos e serviços criados pela inovação
tecnológica, motor central do desenvolvimento. E fazer
do cidadão um contínuo consumidor, cada vez menos
satisfeito com o que já tem e encontrando no ato de compra
satisfação ilusória de desejos ou alívio
temporário de frustrações. Em geral, a propaganda
se destina a fazer o indivíduo consumir mais algo de que
não precisa, ou trocar a marca daquilo que já consome.
As razões são sistêmicas. A primeira tem que
ver com a necessidade intrínseca ao capitalismo de estar
em permanente expansão, no que ele depende da voracidade
do consumidor. A segunda objetiva manter viva e selvagem a concorrência,
fundamental ao estímulo da eficiência e do controle
dos preços. Para conseguir tais objetivos vale tudo.
A sofisticação da propaganda é
intensa. Ela recorre a instrumentos sofisticados como técnicas
subliminares, que criam desejos e necessidades utilizando, entre
outros, processos de identificação e transferência.
Dado o papel que nossa sociedade atribui à propaganda,
nada a objetar; a não ser os limites que devem ser estabelecidos
para que esse imenso poder não colida diretamente com o
interesse público ao induzir ao consumo inadequado ou perigoso
pessoas que têm poucas condições de se defender
desse seu poder. A discussão central remete à questão
da liberdade. Os defensores ferrenhos da propaganda sem restrições
gostam de associá-la à liberdade de expressão.
Aqueles que aprenderam a cultivar essa liberdade como valor maior
da democracia, em especial os que sofreram censura e tortura por
expressarem pontos de vista diferentes dos autoritários
donos provisórios do poder, têm o direito de não
gostar dessa generalização.
Vez por outra, a mídia escrita se envolve
em armadilhas. No último Dia Internacional da Imprensa,
anúncio de página inteira de sua entidade de classe
mostrava manifestantes lacrados em sala fechada, e alertava: "Se
não fosse a liberdade de expressão, alguns protestos
só existiriam entre quatro paredes. Liberdade de expressão,
um direito do cidadão." Pura verdade. Mas no canto
direito da página, quase imperceptível, pousava
uma "impressão digital": a logomarca de uma grande
multinacional de cigarros - com propaganda restrita na maioria
dos países do mundo - com a inscrição: "Empresa
parceira." Jornais, revistas, rádios, TVs e internet
precisam tanto da propaganda, e vivem tão abarrotados dela,
que acabam aceitando embalar edições com capas "falsas",
fazer os anúncios lançarem seus braços sobre
o noticiário de forma a parecer torná-lo secundário
e contaminar a programação com merchandising. Esse
deve ser o preço a pagar pela liberdade de expressão?
Uma sociedade que pretende a primazia do cidadão
e sua mínima liberdade precisa, e pode, ter regras e limites
para a propaganda sem afetar seu papel fundamental na lógica
do sistema econômico. Um surpreendente exemplo foi a até
aqui muito eficaz ação da Prefeitura de São
Paulo na limitação da poluição visual
insuportável na cidade. Esperemos que novos interesses
não revertam essa rara política pública de
alta qualidade cívica. Obviamente, não houve redução
do consumo de nenhum dos produtos que abarrotavam com sua poluição
visual o espaço paulistano. A indústria da propaganda
é suficientemente inteligente e competente para encontrar
outras soluções. Deixada à solta, ela tende
a ocupar vorazmente todo o espaço público, entrar
em rendimento decrescente e saturar o consumidor. Uma tese interessante
seria imaginar uma regra que levasse a mídia impressa e
eletrônica a uma relação máxima razoável
entre o espaço de propaganda e o de matérias ou
programação. O preço do espaço subiria
igualmente para todos os anunciantes, mas a eficácia de
sua veiculação se elevaria na mesma proporção,
pelo melhor impacto relativo no consumidor. E a sociedade ganharia
com jornais, revistas, TVs e internet mais "limpos",
enobrecendo os veículos e aumentando o interesse do cidadão.
Discussão semelhante surge agora na questão
das restrições à propaganda da cerveja. Um
pesado lobby se levanta em jogo bruto para acusar essa medida
de "restrição à liberdade" e aparecem
enormes anúncios com o refrão: "Querem proibir
a publicidade de cerveja no Brasil. É o mesmo que proibir
a fabricação de abridores de garrafa no Brasil."
Ora, vejam. Obviamente, a propaganda de cerveja visa o aumento
de seu consumo e a guerra entre as marcas. Mas em meio ao texto,
em forma de poesia, surge toda uma manipulação a
serviço de tese ruim: "Por isso, proibir a publicidade
de cervejas não vai mudar em nada esse quadro (da violência,
do vício de menores, etc.), a não ser tirar de você
o direito de gostar ou não gostar desta ou daquela publicidade.
De se informar e de formar a sua opinião. Um direito tão
sagrado quanto o que você tem de comprar ou não um
abridor de garrafas." Esses argumentos, contraditórios
e inconsistentes, não convencem qualquer pessoa responsável
de que é saudável submeter crianças e jovens
a apelos altamente sedutores e eróticos associados a várias
dessas propagandas, induzindo-os precocemente ao interesse pelo
consumo que pode levar ao vício.
A sociedade, por meio de suas instituições,
tem o dever de proteger a liberdade colocando limites razoáveis
para a propaganda, esse instrumento de enorme poder que usa até
espaços públicos para objetivos privados que às
vezes pretende ocultar.
Gilberto Dupas, coordenador-geral do Grupo de
Conjuntura Internacional (IRI-USP), presidente do Instituto de
Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), é autor
de vários livros, entre os quais O Mito do Progresso (Editora
Unesp)