| Presidente do Conar diz que órgão
tem sido usado como árbitro nas disputas entre concorrentes
na publicidade
Diretor de Relações com o Mercado da Rede Globo, Gilberto
Leifert foi o primeiro diretor-executivo do Conselho Nacional de
Auto-regulamentação Publicitária (CONAR), de
1980 a 1985; e seu diretor-primeiro-secretário por quatro
mandatos consecutivos, a partir de 1990. Hoje preside o Conselho
Superior, o Conselho de Ética e a Diretoria do órgão.
Reconhecido como especialista em ética, Leifert acredita
que a propaganda no Brasil se comporta acima da média das
instituições brasileiras e imagina que o modelo de
auto-regulamentação poderia ser usado por outros setores.
Para ele, o sistema funciona bem na publicidade, porque as regras
são discutidas e respeitadas por todos os agentes: “O
consumidor tem a responsabilidade de perguntar e saber o que está
comprando”.
O GLOBO: Vários setores, como os de bebidas, automobilístico
e de telefonia, vêm recorrendo ao Conar em suas guerras pela
concorrência. Como a entidade se sente no meio das batalhas?
GILBERTO LEIFERT: A vocação do Conar é de defender
a liberdade de expressão comercial, oferecendo ao público
informações honestas e verdadeiras. Outra missão
é de dirimir controvérsias entre anunciantes e agências,
como um fórum especializado. O Conar não toma a iniciativa
de interferir na publicidade entre concorrentes, mas, quando é
procurado, atua como árbitro. Quando dois anunciantes disputam
o mercado, o desejável é que dessa disputa resultem
benefícios tangíveis para o público. Quando
um anunciante se compara com o outro ou quando um enaltece o seu
produto de tal forma que o outro se sente aviltado, o Conar busca
aferir se a publicidade de ambos se faz em conformidade com o Código
de Auto-Regulamentação Publicitária e com a
ética da propaganda.
O GLOBO: A maioria das agências de publicidade respeita
as decisões do Conar e conhece o Código de Auto-Regulamentação
Publicitária. Por que, então, insistem em anúncios
que ferem o Código?
LEIFERT: A auto-regulamentação é como o Evangelho,
cada um interpreta do seu jeito e podem existir diferentes correntes
de interpretação. Como quem está fazendo a
propaganda pode fazer várias leituras, até ousadas,
em função da evolução dos costumes ou
de uma nova abordagem a respeito de um produto ou serviço,
muitas vezes a infração ética ocorre sem que
haja o intuito de prejudicar o consumidor ou o outro anunciante.
Pelo volume de reclamações que o Conar recebe ou que
é dirigido aos órgãos de defesa do consumidor,
acredito que a propaganda se comporta acima média das instituições
brasileiras.
O GLOBO: Historicamente, os anúncios de emagrecedores, cosméticos,
inibidores do fumo e dietéticos são os que mais têm
anúncios suspensos pelo Conar. A agência retira a propaganda,
mas em seguida lança outra, também enganosa. O que
é possível fazer para romper este ciclo?
LEIFERT: Grande parte destes produtos que têm os anúncios
suspensos pelo Conar deveriam estar submetidos a uma vigilância
sanitária mais estrita. Em tese, um produto chega à
mídia depois de cumprir as exigências das autoridades.
O Conar muitas vezes se antecipa porque, além das questões
éticas da propaganda, quando se trata de saúde pública,
a entidade não pode se omitir. E quando isso ocorre, freqüentemente,
a autoridade sanitária atua com o Conar.
O GLOBO: O consumidor está mais atento às
propagandas?
LEIFERT: O nível de reclamações é bastante
baixo 'porque o consumidor brasileiro é bonzinho, porque
tem que escrever uma reclamação ao Conar e nem todos
têm tempo ou capacidade de produzir uma queixa. Isso não
quer dizer que não há erro. No entanto, outros setores
da economia são muito mais apontados nos órgãos
de defesa do consumidor. Em outros países, não existe
um código de auto-regulamentação combinado
com uma lei de defesa do
consumidor, como aqui. Nós temos um sistema muito evoluído.
O GLOBO: O Senhor já se declarou favorável
à criação de uma lista de informações
essenciais para os comerciais, com a exigência de que a empresa
coloque um telefone para informações. Por que isso?
LEIFERT: A lei tem obrigado a inclusão de algumas informações
em anúncios que não oferecem nenhuma vantagem para
o público. Por exemplo: nos anúncios de automóveis
é preciso dizer que o veículo esta em conformidade
com o Proconve. Você sabe o que é o Proconve? É
o Ibama que obriga que a montadora diga que o veículo não
polui. A autoridade que vai licenciar o carro é que tem que
fazer essa exigência, não o anúncio. Além
disso, o consumidor tem a responsabilidade de perguntar e saber
o que está comprando. Colocar toda essa responsabilidade
no anunciante é tutelar o consumidor.
O GLOBO: A auto-regulamentação vem funcionando
bem na área da publicidade. O senhor acha que esse modelo
poderia ser usado em outros setores?
LEIFERT: Os setores que são muito demandados no Judiciário,
bancos, seguradoras e de compra e venda de imóveis, poderiam
discutir internamente as questões e aliviar o judiciário
O GLOBO: Nos quase 25 anos de Conar as leis foram mudando.
Elas estão se tornando mais rigorosas ou mais liberais?
LEIFERT: Os legisladores em vez de dirigir suas cobranças
ao Executivo, aos prestadores de mau serviço público,
ficam querendo regular o setor privado, que dá certo. Só
a publicidade está merecendo 200 projetos de lei em andamento
no Congresso. O setor de propaganda vai bem. Sou capaz de enumerar
vários setores que carecem de legislação. E,
no caso de publicidade, as modificações do Código
são discutidas com todos os operadores , por isso, são
respeitadas.
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