O presidente do Conar diz, em entrevista, que
exigências impostas pelo Estado às empresas não
têm nenhuma correspondência com a qualidade dos serviços
públicos oferecidos e que, para o governo, é mais
fácil tentar banir a publicidade de uma categoria de produto
do que acabar com filas ou obrigar um ente público a prestar
bons serviços.
- O senhor tem associado freqüentemente
publicidade e liberdade de imprensa, uma como fiadora e garantidora
da outra. Acredita que essa noção está bem
difundida pela sociedade?
Acredito que não. Nem o público em geral, que é
consumidor de informação, nem os próprios
jornalistas que a produzem costumam aprofundar a análise
a respeito do tema.
E diria mais: tão importante quanto a condição
de fiadora da liberdade de imprensa é a utilidade
da propaganda na sociedade moderna. Ela contribui para que os
cidadãos exerçam bem o direito de fazer escolhas.
Informação editorial e informação
publicitária são complementares.
Dependemos de informação todo o tempo, para elegermos
nossos representantes políticos, escolher o plano de previdência
que nos convém, a marca de sabonete, o bairro em que vamos
morar.
Quanto melhor o nível de informação a respeito
de produtos e serviços disponíveis, melhores poderão
ser as nossas escolhas.
- Como vê as iniciativas da Anvisa que pretendem regular
a publicidade de várias categorias de produtos?
As iniciativas da Anvisa têm sido acompanhadas com muita
atenção pelo Conar e pelas entidades que o fundaram,
bem como pelas associações setoriais diretamente
interessadas. Nas consultas e audiências públicas
já realizadas em diferentes oportunidades, o Conar tem
contestado a forma que a Anvisa pretende adotar, que é
a resolução de diretoria colegiada.
A competência legislativa em matéria de propaganda
comercial é privativa do Congresso Nacional. Está
escrito na Constituição.
- Quais as expectativas em relação às
iniciativas do Legislativo recém-empossado no campo da
publicidade?
Novas legislaturas, velhas iniciativas. Tem sido assim. Os parlamentares
recém-eleitos costumam mirar a publicidade nos primeiros
tempos de seus mandatos. Acredito que, infelizmente, a tendência
deverá prevalecer também nesta nova legislatura.
Duas centenas de projetos de lei ameaçavam a publicidade
e agora muitos deles estão sendo
desarquivados e se somarão a outros tantos novos, mesmo
que repitam proposições já rejeitadas pelo
próprio Parlamento.
Vários desses projetos pecam pelos exageros ou são
até desnecessários.
Bastaria que o parlamentar exigisse o cumprimento das leis já
existentes e confiasse no setor privado e na auto-regulamentação.
- Ao que atribui a percepçãogeral entre as
autoridades de que oconsumidor precisa de proteção
legal contra fornecedores de produtos e serviços de todos
os tipos?
O Estado foi contido pela Constituição de 1988,
mediante a declaração minuciosa dos direitos e
garantias fundamentais e, no caso da comunicação
social, com o banimento da censura. Na prática, o Estado
continua exercendo um poder imenso sobre o funcionamento das instituições
e interfere de forma exacerbada e injusta nos domínios
da livre iniciativa. No Brasil, lamentavelmente, ela ainda não
é tão livre quanto poderia.
Esse descompasso é visível a olho nu. As exigências
impostas pelo Estado às empresas não têm nenhuma
correspondência com a qualidade dos serviços públicos
oferecidos.
A conclusão a que se pode chegar é que nos acostumamos
com o mau funcionamento do Estado e somos lenientes quando ele
é o provedor dos serviços de saúde, segurança,
educação, transportes, por exemplo. É claro
que não podemos perder as conquistas já obtidas
pelos consumidores. Mas é evidente que o país freqüentemente
pratica pesos e medidas diferentes.
A falta de isonomia pode ser constatada em face das propostas
de restrição à publicidade. Ao Estado pode
ser mais fácil, hoje, mexer no conteúdo de um anúncio
ou banir uma categoria de produtos do que acabar com uma fila
ou obrigar um ente público a prestar bons serviços.
- Fica a impressão de que a autoridade não
acredita no poder de discernimento do cidadão.
É um evidente paradoxo. Em relação à
publicidade, temos insistido nessa tecla: muitas vezes o projeto
de lei ou a intervenção do Estado sugere que o cidadão
é considerado plenamente capaz apenas para constituir família,
eleger representantes políticos, pagar impostos... mas
seria incapaz de fazer escolhas a partir da publicidade.
A tese que o Conar defende pode ser resumida numa idéia:
a formação de cidadãos responsáveis
e consumidores conscientes depende fundamentalmente de informação
e liberdade, e não da falta delas.
- O Conar colocou em prática novas normas éticas
para a publicidade de alimentos e de produtos e serviços
destinados a crianças e adolescentes. Já é
possível fazer um balanço?
O balanço é positivo. O resultado pode ser medido
pela ampla adesão às novas normas adotadas em junho
de 2006 e que entraram em vigor em setembro. O pequeno número
de
processos éticos abertos desde então também
confirma essa impressão.
A explicação é simples. Anunciantes, agências
e veículos tinham em vista a necessidade de
atender as demandas da sociedade e de conciliá-las com
liberdade de expressão comercial. Diante dessa perspectiva,
o Conar se impôs a tarefa de mediar os interesses, deveres
e
valores colocados em questão. Reconhecemos que na negociação
que precedeu a edição das normas, todos, de algum
modo, abriram mão de alguma coisa em favor do aprimoramento
da auto-regulamentação e da responsabilidade social.
Houve consenso que crianças e adolescentes merecem tratamento
diferenciado.
- Quais são, na sua opinião, as áreas
sensíveis para a ética publicitária no futuro
próximo?
Olhando até onde a vista pode alcançar, não
me parece que as questões serão de natureza ética.
O mercado está acostumado a operar sob regras e o consumidor
está cada vez mais exigente.
Nossas preocupações se voltam para as iniciativas
do Estado. É sempre bom esclarecer que o ato de censura
não é prerrogativa do Executivo.
O Legislativo e o Judiciário também podem cometê-la
por lei ou por sentença.
- Para o Conar, 2007 começa com a entrada no Conselho
de Ética de representantes das mídias cinema, internet
e TV por assinatura. O que isso significa?
A efetividade das decisões das Câmaras do Conselho
de Ética depende em larga medida da adesão dos veículos
de comunicação. A presença, no colegiado,
de representantes de todos os
segmentos da mídia permite visão abrangente e a
consideração das peculiaridades de cada meio para
com seus diferentes públicos.
Além dos jornais, revistas, rádios e TVs abertas
e outdoor, contamos com a participação da internet,
da TV por assinatura e do cinema nos julgamentos, agora de maneira
formal,
conforme previsão no estatuto.
- Por que se abriu mais espaço para a representação
dos consumidores no Conselho de
Ética? Como avalia a participação dos consumidores
no Conselho de Ética?
O Conselho de Ética contava com 24 representantes da sociedade
civil e acabamos de criar doze novos assentos.
A visão externa e independente que nos é oferecida
por médicos, advogados, jornalistas, professores e cidadãos
de diferentes origens e experiências se mostra de grande
valia.
Graças à participação de publicitários
de diversas especialidades e representantes
qualificados da sociedade civil, tem sido possível ao Conselho
decidir com ética, conhecimento técnico, bom senso
e razoabilidade.