A PUBLICIDADE está sendo considerada causa de problemas
complexos, como diabetes, obesidade, alcoolismo e mortes no trânsito.
Esse é o diagnóstico simplista daqueles que se intitulam
xerifes da saúde e do bem-estar da população
-uma minoria que se julga mais esclarecida e, por isso, quer tutelar
o cidadão comum.
Mas o que realmente parece incomodar os "xerifes" não
são os anúncios. É a liberdade: eles experimentam
insuportável sofrimento quando confrontados com pessoas
livres, decididas, capazes de votar, casar, manejar o orçamento
doméstico etc. Diante do conjunto de iniciativas oficiais
mirando a publicidade de automóveis, bebidas alcoólicas,
medicamentos, alimentos, refrigerantes e produtos destinados a
crianças, entre outras categorias, os menos avisados acabarão
acreditando que, além da dengue e da febre amarela, o Brasil
padece da epidemia de anúncios enganosos e abusivos. Não
é verdade.
O número de reclamações recebidas pelos Procons
e pelo Conar está longe, muito longe de indicar que o atual
sistema misto de controle, que combina legislação
e auto-regulamentação, esteja doente.
Diante desse dado tranqüilizador, é prudente desconfiar
de quem prescreve o remédio da proibição
da publicidade como solução eficaz e indolor para
problemas complexos.
"Há preconceito em achar que o pobre não sabe
escolher", adverte Rosani Cunha, do Ministério do
Desenvolvimento Social (MDS). No mesmo sentido é a observação
de Michael Klein, das Casas Bahia: "A classe C está
mais exigente e informada". Ambos têm toda a razão.
As mães contempladas pelo Bolsa Família são
livres para gastar o dinheiro que recebem. O programa oficial
reconhece o discernimento e o direito de escolha delas. Além
de arroz e feijão, podem comprar produtos industrializados
anunciados na mídia.
Faz sentido. A nova legião de consumidores conhece as próprias
necessidades e se preocupa com a saúde. Tende a abandonar
os produtos feitos em fundo de quintal, sem controle sanitário.
Além dos gêneros de primeira necessidade, agora podem
comprar biscoitos, refrigerantes, iogurtes etc. identificados
pelas marcas.
São produtos lícitos e seguros para o consumo e
que, portanto, podem ser comercializados e anunciados.
Eventuais abusos cometidos pelos anunciantes estarão sujeitos
às sanções do Código de Defesa do
Consumidor (detenção e multa) e da auto-regulamentação
(sustação da veiculação pelo Conar).
Mas, ao que parece, a eficiência do sistema não importa.
Ao mirar só a publicidade, as iniciativas oficiais revelam
que o Estado considera os cidadãos incapazes de receber
informações e, a partir delas, fazer escolhas.
Anúncios ajudam as pessoas a decidir. Informam sobre novos
produtos, promovem comparações de atributos e preços
e estimulam a competição entre concorrentes. Podem,
ainda, ser pedagógicos, como nas advertências "Se
for dirigir, não beba" ou "Este produto é
destinado a adultos", adotadas pelo Conar a partir de 10/4
para os anúncios de bebidas alcoólicas.
Uma das doenças do país é o excesso de leis.
As proposituras contra a publicidade pretendem suprimir direitos.
Faria melhor o Estado apoiando o desenvolvimento do senso crítico
de nossos consumidores por meio da educação e da
informação.
Que tal introduzir no currículo escolar a disciplina "liberdade
de escolha", para transmitir às crianças noções
acerca de hábitos saudáveis, riscos do sedentarismo,
álcool, tabaco e drogas, bem como noções
sobre a importância da informação (opinião,
notícia e anúncio) para a cidadania?
Enquanto os poderes públicos perseguem a publicidade, convivemos
com o seguinte paradoxo: jovens de 16 anos podem escolher a carreira
que pretendem seguir e elegem o presidente da República,
mas poderão ser impedidos de assistir a comerciais de refrigerantes
e sorvetes (sic) em televisão antes das 21h caso seja aprovada
uma das medidas defendidas pelo Ministério da Saúde
e pela Anvisa.
Cidadãos responsáveis e consumidores conscientes
dependem de informação. Tutela, restrições
exacerbadas e proibições arbitrárias afetam
o sistema imunológico do organismo social. Cidadãos
desinformados acabam debilitados: perdem a capacidade de formular
juízos de valor e, portanto, de fazer escolhas. Instalada
a epidemia, os mais esclarecidos, a pretexto de proteger a maioria,
passam a tomar decisões em lugar dela. Simples assim.