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Propaganda, cerveja & Conar

Loy Barjas*

“Ao ler duas matérias em dois jornais diferentes durante semana passada, lembrei de uma cena que se repetia sempre em casa quando eu era criança. Toda vez que minha mãe convocava meu pai para ‘consertar’ alguma coisa que não estava funcionando (enceradeira, liquidificador, rádio, etc.), a primeira coisa que ele perguntava era: ‘está ligado?’ Ele sabia que, embutida na ingenuidade da piada, estava uma liçãozinha que, pela repetição, ficaria gravada na nossa memória: a de que antes de começar a pensar em soluções mirabolantes para qualquer tipo de problema que se apresente, convém sempre começar do começo, do básico.

Uma das matérias é uma entrevista com um ministro de estado, a outra, um artigo intitulado ‘O Conar não funciona para o álcool’, construída por uma dupla de autores, um doutor em psiquiatria e uma psicoterapeuta mestre, essa já bastante conhecida, pela predileção ao tema.

É exatamente essa a impressão que eu tenho quando se fala da atualíssima fábula ‘A Propaganda, a cerveja & o Conar’. Os escolhidos da hora. Os malfeitores mais temidos da praça. Aqueles que não deixam nossas pobres famílias dormir em paz.

É fácil transferir responsabilidades. É cômodo criar culpados que são ‘psicologicamente’ aceitáveis por uma sociedade que anda atormentada pelo caos social provocado, entre outras coisas, pela impunidade conveniente.

Não me parece saudável, só pra ficar no tema, criar leis quando já existem aquelas que jamais foram cumpridas. Sempre foi proibido vender bebidas alcoólicas a menor de idade. Aos jovens, portanto. E sempre foi recomendável (pela saúde pública) consumir álcool moderadamente.

Não consigo entender nem aceitar que, de uma hora para outra, nós tenhamos que tornar proibida uma atividade que é absolutamente legal. Que vetemos numa só canetada a divulgação de produtos que são fabricados legalmente, fiscalizados e regulamentados (pela saúde pública), destinados ao consumo de uma população adulta e devidamente esclarecida, porque a lei primeira não é respeitada. Desde a origem desse produto até as condições que ele pode ou não ser consumido, já tá tudo lá, preto no branco.

Não aceito a idéia esdrúxula, primitiva, de rejeitar que a própria sociedade se auto-regulamente e se torne, com isso, uma sociedade mais responsável. E mais consciente dessas mesmas responsabilidades.

Está claro para mim que neste caso há um erro fenomenal de foco.

Não tenho dúvidas de que nós precisamos, sim, da ação das autoridades, mas essa ação deve ser dirigida ao lugar certo. Não onde pode render alguma simpatia barata, mas onde realmente estamos precisando, no cumprimento das leis que já existem e que, de maneira negligente não são aplicadas há gerações. Isso para ficar no básico. No ponto de origem. Nos pontos-de-venda.

Se for para lançar mão de ‘estudos científicos internacionais’ ou ainda o vago argumento das ‘evidências científicas’ para crucificar nossa santa cervejinha, por que não aprender com países socialmente mais desenvolvidos como conviver livremente, democraticamente com hábitos adquiridos ao longo de séculos. Não é segredo para ninguém que existem países que têm na cerveja um patrimônio nacional e cultural, com leis que definem e protegem a sua fórmula na fabricação (Denominação de Origem Controlada) e impõem regras de como ela pode e deve ser consumida. Tivemos, aliás, a oportunidade de testemunhar (com uma ponta de inveja, admito) o orgulho com que os alemães se apresentaram ao mundo, tendo nas mãos seu patrimônio, sua história cantada ao vivo e em cores na última Copa do Mundo de futebol. A cerveja é uma parte importante da identidade deles.

Não quero parecer leviano ou ingênuo quando comparo o Brasil com países como a Alemanha. Mas quero chamar a atenção para o fato de que, se pretendemos algum dia atingir um grau de desenvolvimento social minimamente aceitável, vamos ter que começar pelo começo. E o começo definitivamente é a liberdade de expressão!

Negar o Conar, a auto-regulamentação da sociedade civil, é dar um passo para trás. Muito atrás. Um luxo que não podemos nos permitir. O Conar é uma conquista do país. E se não for a maior, seguramente é das mais importantes, porque significa uma sociedade madura. Uma sociedade sem a necessidade da tutela do Estado.

A propaganda não é a culpada pelo uso abusivo de álcool. A cerveja não é a culpada pelas baladas, noitadas, bailes funks, comemorações de aniversários ou por conquistas amorosas, esportivas, profissionais e afins. E o Conar definitivamente não é culpado pela inoperância do Estado no cumprimento de suas obrigações.

Propaganda é só propaganda, cerveja é só cerveja e o Conar é um exemplo de cidadania.

Loy Barjas é sócio e diretor da F/Nazca Saatchi & Saatchi