Quando comecei a trabalhar na redação do "Estadão",
em meados da década de 60 do século passado, ouvi
pela primeira vez a frase que dá título a este artigo.
O autor é o jornalista Frederico Branco, que morreu em
2001, depois de exercer o ofício por 45 anos, marcando
época como editor de noticiário internacional, sem
saber que sua singela filosofia de vida serviria de inspiração
para a criação do primeiro código brasileiro
de auto-regulamentação.
No próximo mês de abril, quando o Código Brasileiro
de Auto-Regulamentação Publicitária, que
daria origem ao Conar, completa trinta anos de bons e gratuitos
serviços prestados à sociedade brasileira em defesa
da ética no exercício da atividade e dos direitos
dos consumidores, o país tem muitos motivos para comemorar
essa experiência pioneira.
Em lugar de recorrer à Justiça, que sempre demora,
ou se queixar ao bispo, como se dizia antigamente, a partir daí
qualquer empresa ou cidadão vítima de publicidade
enganosa ou abusiva capaz de causar constrangimento passou a recorrer
ao Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária
(Conar), organismo não-governamental criado pelas entidades
do setor para zelar pelo cumprimento do código.
Foi o que fez, por exemplo, o conselheiro Carl Howard, em nome
da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, quando não
gostou de ver uma fotografia de Hillary Clinton, então
primeira-dama, sentada de pernas entreabertas num anúncio
da Duloren publicado no "Jornal do Brasil", em novembro
de 1995. Sob a foto dela, o texto dizia: "Senhor presidente
dos Estados Unidos da América: Vossa Excelência não
imagina do que uma Duloren é capaz."
Em representação enviada ao Conar, Howard alegou
que "a fotografia é de mau gosto e invade a privacidade
da senhora Clinton. Sua utilização, certamente,
não foi autorizada de forma alguma". Por isso, pedia
a imediata suspensão do anúncio, o que foi determinado
pelo Conselho de Ética da entidade. Frederico Branco, certamente,
também enquadraria esse anúncio na categoria "coisa
que não pode", simples assim.
Da mesma forma, é ao Conar que recorre o próprio
Ministério Público para denunciar anúncios
que contrariam, por exemplo, o Código de Trânsito
Brasileiro, ou as leis de defesa do meio ambiente. Até
o final do ano passado, 6.173 processos éticos referentes
a anúncios inadequados haviam sido julgados pelo Conar.
Em 2007, 15% desse total foram sustados e 40% tiveram que alterar
seu conteúdo. Os veículos sempre cumpriram as determinações
do Conar e, nas poucas vezes em que suas decisões foram
contestadas na Justiça, as sentenças acabaram sendo
favoráveis à entidade.
Em abril de 1978, os publicitários brasileiros reagiram
a uma ameaça: o governo federal, ainda sob o regime militar,
planejava a implantação de uma espécie de
censura prévia à propaganda. A arma utilizada, ao
final do III Congresso Brasileiro de Propaganda, foi a aprovação,
por mais de três mil publicitários do país
inteiro reunidos em São Paulo, do pioneiro código
de auto-regulamentação da atividade.
Liderados por Mauro Salles e Caio Domingues, os profissionais
do setor não esperaram acontecer anteciparam-se, tomando
a iniciativa de zelar eles próprios por uma propaganda
ao mesmo tempo livre e responsável. Em vez de brigar no
varejo a cada nova ameaça, eles resolveram agir no atacado,
de uma vez só, criando um novo instrumento para defender
a liberdade de expressão, que é vital para seu trabalho.
Trinta anos depois, o país vive o mais longo período
de plenas liberdades democráticas, mas as ameaças
não cessaram. Há, no momento, mais de 200 projetos
em tramitação no Congresso Nacional para, de alguma
forma, cercear a liberdade de expressão ou restringir a
veiculação comercial, sem falar em constantes iniciativas
de órgãos públicos com o mesmo objetivo.
Mas, fora do meio publicitário e dos veículos de
comunicação, quem se encontra informado sobre o
que está em jogo, sabendo-se que esse é um assunto
de interesse de toda a sociedade? Para muita gente, tanto tempo
passado, o Conar ainda é visto como uma instituição
oficial, ligada ao governo, quando se trata exatamente do contrário:
um instrumento da sociedade civil criado pelas entidades do setor
- anunciantes, agências e veículos - para zelar pela
ética nas mensagens publicitárias por meio da auto-regulamentação.
São, portanto, os próprios profissionais do meio
que definem "as coisas que podem e as coisas que não
podem". E quem julga o cumprimento das regras estabelecidas?
São os 180 publicitários e representantes da sociedade
civil, todos eles voluntários médicos, jornalistas,
pesquisadores, professores universitários, quer dizer,
os consumidores reunidos no Conselho de Ética.
No 18º andar do Edifício Horsa II, no Conjunto Nacional,
na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, em São
Paulo, a sede do Conar funciona como uma espécie de delegacia
de defesa do consumidor e do produtor de propaganda, ao mesmo
tempo, mas não tem nada a ver com o Procon. como muitos
ainda confundem. Também não se trata de uma ONG
convencional porque, diferentemente do que normalmente acontece,
a entidade não apenas reivindica e defende direitos, mas
toma decisões e as aplica no menor prazo possível.
Qualquer cidadão ou empresa que se sentir ofendido ou prejudicado
por um anúncio pode apresentar sua queixa, que será
analisada e, se for o caso, é aberto um processo no Conselho
de Ética, com julgamento em cerca de trinta dias. Caso
existam recursos, há outras duas instâncias, mas
isso acontece poucas vezes. Desde a sua fundação,
o Conar sempre procurou se antecipar às questões
polêmicas em discussão na sociedade, atualizando
e reformulando o código, como tem acontecido freqüentemente
nas áreas de bebidas alcoólicas, alimentos e medicamentos.
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Se tem uma coisa que não falta no Brasil são leis.
Talvez sejamos campeões do mundo também nisso: não
conheço outro país com uma legislação
tão pródiga, que regulamenta tudo em todos os setores,
nos mínimos detalhes, e a todo momento institui novas regras
e restrições, ao mesmo tempo em que o processo judiciário
se torna cada vez mais moroso, mais distante das urgências
e das necessidades do cidadão comum, estimulando a impunidade.
Por isso, iniciativas bem-sucedidas de auto-regulamentação
como a do Conar, próximas da vida real de empresas e pessoas,
deveriam ser cada vez mais estimuladas na sociedade, para dar
um sossego aos bispos e desatravancar a Justiça, encontrando
formas mais modernas e civilizadas, mais rápidas e eficientes
para mostrar a cada um o que pode e o que não pode, como
ensinava o velho sábio Frederico Branco.
RICARDO KOTSCHO é jornalista