| Todos perdem quando a ética anda para trás
Os seguidos recordes no número de representações
abertas e julgadas pelo Conselho de Ética nos últimos
anos comprovam a proficiência do Conar, tanto no atendimento
às demandas dos consumidores quanto de anunciantes, agências
e veículos associados.
Sem comprometer a sua comprovada agilidade de respostas, a simplicidade
de seus procedimentos e vigor nas decisões, o Conselho de
Ética tem se desincumbido das tarefas que lhe cabem, graças
ao trabalho voluntário de mais de uma centena de conselheiros.
Mas até que ponto recordes na abertura e julgamento de
representações são uma boa notícia?
Será que este crescimento não reflete, ainda que em
casos localizados, a ação de anunciantes e agências
tentados a transitar pelas bordas extremas da ética publicitária?
Será que não haveria casos em que o anunciante e sua
agência optam por uma estratégia de comunicação
propositadamente provocadora, testando os limites do Código
e, por que não, a paciência do Conselho de Ética,
trazendo para o ambiente normalmente rápido e descomplicado
do Conar manobras que atravancam tantos tribunais brasileiros?
Ressalvando-se, mais uma vez, que estamos falando de casos localizados,
de concorrências cada vez mais aguerridas, creio que a resposta
é sim. Temos a campanha evidentemente antiética que
entra no ar depois do encerramento do expediente do Conar ou o anunciante
que aposta na desinformação do consumidor, certo de
que assim preservará seu share diante de seus concorrentes
– como se a disputa de mercado exacerbada fosse desculpa para
fazer vista grossa à legislação e às
normas éticas.
Além de ser publicidade do pior tipo, é pura falta
de ética. Sabe-se que está errado, mas vai-se em frente,
como aqueles motoristas que sempre acreditam que o guarda não
estará olhando.
Aos anunciantes e agências que se sentem à vontade
em brincar com fogo, alguns lembretes de alguém com longa
experiência na publicidade e que se orgulha tanto da própria
militância no Conselho de Ética quanto por ver, em
uma das suas paredes, uma placa honrando a memória do pai,
presidente da Comissão que instituiu o Conar:
- O mais importante de tudo: o consumidor não é,
nunca foi, nunca será bobo. Ele percebe quando anunciantes
e agências agem de má- fé e, não tenham
dúvida, vai se lembrar disso na próxima compra.
- Deputados, senadores e autoridades do Executivo, de todos os
níveis, continuam de olhos crescidos sobre os limites da
publicidade. Nunca é demais lembrar que algo entre duzentos
e trezentos projetos de lei tramitam neste momento em alguma instância
do Congresso, propondo limitações à publicidade.
Nossa única defesa eficaz contra esta “sanha legisferante”,
como já foi chamada, é fortalecer a auto-regulamentação
publicitária. A recente revisão do Código em
relação à publicidade de bebidas alcoólicas
provou mais uma vez esta tese, de que Brasília valoriza e
respeita as decisões do Conar. Portanto, jogar irresponsavelmente
com o Conar, testando os seus limites, é o mesmo que fornecer
combustível àqueles que querem, por vários
motivos, cercear a nossa atividade, mesmo não diferenciando
uma vinheta de um comercial.
- O Conar não está impotente diante desta situação.
Não se deve confundir a temperança e maturidade dos
seus dirigentes no trato das crises com passividade. Só neste
ano, informa a Secretaria do Conselho de Ética, já
foram determinadas 27 sustações liminares, vale dizer,
anúncios “fora do ar”, antes do julgamento definitivo.
A auto-regulamentação deu à publicidade brasileira
uma base sólida a partir da qual ela cresceu e se fortificou,
tornando-se uma referência mundial. Isso aconteceu porque,
de um lado da mesa, havia uma instituição centrada
e eficiente e, de outro, anunciantes, agências e veículos
éticos.
Não podemos permitir que esta ética se perca, tanto
mais num momento em que se exige da publicidade brasileira toda
a sua competência e inventividade.
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