| Nesta entrevista, Gilberto C. Leifert, presidente
do Conar, fala sobre novas formas de pressão sobre a liberdade
de expressão, inclusive comercial, e também das iniciativas
que marcarão o jubileu do Conar, em 2005.
Parece ter havido uma mudança no pólo
das pressões contra a liberdade de expressão comercial
no Brasil, do Legislativo para o Executivo. O senhor concorda com
isso?
Temo que, talvez, estejamos no pior dos mundos: no Legislativo
continuamos a sofrer toda a pressão de mais de duzentos projetos
de lei que, de uma forma ou outra, visam cercear o direito de anunciar,
enquanto o Executivo, nas palavras e nas iniciativas, demonstra
menor apreço pela liberdade de expressão. Se vulneram
pouco ou muito, é uma questão de interpretação,
mas ninguém discorda que estamos correndo risco de retrocesso
perante conquistas ainda muito recentes.
Agora em outubro, a Constituição completa dezesseis
anos. Garantias como a liberdade de criação, expressão
e opinião, bem como o banimento da censura, receio que não
tenham sido assimiladas pela classe política.
A proposta de criação do Conselho Federal
de Jornalismo e da Ancinav são exemplos destas iniciativas
que vulneram a liberdade de expressão?
Sim, mas o movimento parece ser mais amplo. Na verdade, a questão
é de princípio: a Constituição jamais
pode ser contrariada. E claro que em matéria de direitos
fundamentais e liberdades públicasnão se pode admitir
nenhuma interpretação que coloque em risco as conquistas
da Constituição de 88. Aliás, fala-se que ao
escrever a Carta, os constituintes foram minuciosos demais. Quando
rataram de inscrever os direitos fundamentais com clareza e precisão,
estavam empenhados nareconstrução do Estado de Direito,
lançando as bases de um futuro em que a sociedade estaria
imune às violências cometidas pelo Estado. Os princípios
estão muito bem enunciados, e não existe dúvida
sobre ser proibido proibir tanto no plano editorial quanto no publicitário.
Como o senhor vê o fundamento das últimas
iniciativas do governo?
Com preocupação. Não há no país
clamor social ou carência legislativa que pudesse justificar
propostas inspiradas na idéia de controle da informação
e da produção cultural. Ao contrário. “Quem
quer que queira educar adultos na realidade pretende agir como guardiões
e impedi-los de atividade política”, alertava Hannah
Arendt.
Combater as ameaças à liberdade de expressão
comercial será o principal desafio da sua nova gestão,
recém-iniciada?
Este é um desafio permanente. A evolução natural
da sociedade demanda ajustes regulares na ética publicitária.
É natural que assim seja, e o Código Brasileiro de
Autoregulamentação Publicitária foi concebido
para acolher sem traumas estes aperfeiçoamentos sempre que
necessários. A atual gestão promoveu as duas últimas
revisões do Código. Por meio da auto-regulamentação,
o Conar pode contribuir para evitar que a publicidade seja alvo
de restrições e proibições. Os esforços
do Conar serão sempre no sentido de defender a liberdade
de expressão, em todas as suas formas.
Como será comemorado o jubileu do Conar, em
2005?
Pelo que conversamos até agora, trata-se de uma data que
demanda comemoração. As duas iniciativas que posso
adiantar são a criação da Biblioteca de Referência
da Liberdade de Expressão, em parceria com a Escola Superior
de Propaganda e Marketing, e a produção de um livro
relatando toda a trajetória da ética publicitária
e do Conar. Contamos que uma e outra iniciativas valorizem os esforços
desenvolvidos pelos fundadores, pelos membros do Conselho Superior,
das Câmaras de Ética, da Diretoria e os associados
com o objetivo de erigir um modelo de organização
da sociedade civil da qual todos nos orgulhamos.
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