| Boa noite,
Meus colegas presidentes da
ABA – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANUNCIANTES
ABAP - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AGÊNCIAS DE
PUBLICIDADE
ABERT - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMISSORAS DE RÁDIO
E TELEVISÃO
ANER - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDITORES DE REVISTAS
ANJ - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS
CENTRAL DE OUTDOOR
Caríssimos homenageados
Meus companheiros do Conselho Superior e
do Conselho de Ética
Meus colegas de diretoria: Luiz Celso Piratininga, Luiz Carlos
Dutra, Carlos Alberto Nanô, João Luiz Faria Netto,
Fernando Portela, Dorian Taterka e Edney Narchi.
Estimados funcionários da casa
Senhoras, Senhores,
Estamos reunidos esta noite para comemorar os 25 anos de fundação
do CONAR e reverenciar os pioneiros da auto-regulamentação.
Nossa memória nos remete a 1978, quando ainda pesava o chumbo
grosso da censura sobre opinião, notícia e anúncio.
Atendendo ao chamamento do presidente da APP, Luiz Celso Piratininga,
instalava-se em S. Paulo o III Congresso Brasileiro de Propaganda
e, por aclamação de seu plenário, era aprovado
o Código Brasileiro de Auto-regulamentação
Publicitária doze anos antes do Código de Defesa do
Consumidor.
Inspirados no paradigma britânico, Caio Domingues, Mauro
Salles e outros colegas igualmente ilustres arregaçaram as
mangas e elaboraram o documento que passou a ser referência
para a criação, produção e veiculação
de anúncios.
As novas normas éticas cuidavam de honestidade e veracidade,
do respeito à criança, à ecologia e tantos
outros valores. Nasciam também as restrições
aos horários de veiculação de comerciais de
cigarros e bebidas alcoólicas.
À luz do Código, Geraldo Alonso, o pai, e Saulo Ramos,
o jurista, desenvolveram de maneira oficiosa os primeiros esforços
objetivando a correção de uma ou outra campanha.
Enquanto isso, em Brasília, o governo Figueiredo, escudado
em doutrina militar, se preparava para aumentar seu controle sobre
o “campo psicossocial”, através da criação
de uma autarquia para fiscalizar a publicidade.
Sem choro nem vela, as campanhas do sabão que lavava mais
branco, do fusquinha que economizava água, da boneca que
batia palminha e, de resto, todas as outras, seriam colocadas em
fila nos guichês da burocracia...
Soou o alarme.
Onde se encontravam, então, nossos pioneiros?
Petrônio Corrêa presidia a ABAP e era um dos proprietários
da MPM Propaganda. Dionísio Poli dirigia a Central Globo
de Comercialização e representava a ABERT. Luiz Fernando
Furquim presidia a ABA e era o responsável pela comunicação
do Grupo Pão de Açúcar. João Luiz Faria
Netto, jornalista e advogado, era o diretor executivo da ANJ, sob
a presidência do jornalista Roberto Marinho.
Era necessário organizar as forças e agir rapidamente,
na tentativa de reverter a decisão do governo.
Após sucessivas idas a Brasília e muitas tratativas,
nossas lideranças cometem manobra radical, interrompem o
diálogo e passam a articular, a toque de caixa, a fundação
da CONAR – a Comissão Nacional de Auto-regulamentação
Publicitária, sacramentada no dia 05 de maio de 1980.
De índole privatista, a nova entidade se encarregaria de
avaliar, sempre a posteriori, as reclamações de consumidores,
autoridades e do mercado.
Daquela manobra radical dos pioneiros, na qual encontramos ingredientes
típicos da desobediência civil e também um exercício
de cidadania, nasceria uma das primeiras organizações
não-governamentais do país e através dela um
novo instrumento em defesa do consumidor.
O desafio de curtíssimo prazo era o de mostrar ao governo
que a sociedade civil havia assumido, de fato e de direito, o controle
ético sobre a publicidade. Contavam eles, então, com
o Código e com a força moral outorgada pelos mandatos
das nossas seis fundadoras ABA, ABAP, ABERT, ANER, ANJ e CENTRAL
DE OUTDOR.
A primeira diretoria era formada por Petrônio Corrêa,
Luiz Fernando Furquim, Dionísio Poli e Samuel Szwarc, que
também presidia a 1ª. Câmara. Oswaldo de Almeida
Filho e Celso Japiassu presidiam a 2ª. e 3ª. Câmaras,
respectivamente.
Eu me juntei a este grupo em julho de 1980.
Atraído pela oportunidade de voltar a trabalhar na área
da comunicação e seduzido pelo charme do Petrônio,
tornei-me o primeiro diretor-executivo do CONAR.
No primeiro despacho com o presidente aprovamos a compra de uma
linha telefônica, um aparelho de telex, um grampeador... Recebi,
também, meu primeiro trabalho: elaborar o Regimento Interno
do Conselho de Ética e colocá-lo em funcionamento.
Saí desse encontro com as barbas literalmente de molho.
As instalações do escritório mais pareciam
uma repartição pública e o caixa era suficiente
para pagar apenas o grampeador.
Quanto ao meu salário, foi creditado pontualmente ao final
do mês!
A bem da verdade, nunca faltou apoio ao CONAR.
O modesto orçamento inicial foi viabilizado pela generosidade
de um dos pioneiros. Depois, foram conquistadas mais e mais adesões.
Atualmente, o quadro associativo conta com 330 empresas filiadas.
Quando ainda engatinhava, em 1983, o CONAR foi submetido ao crivo
do especialista em regulamentação J. J. Boddewyn,
consultor da I.A.A. - Associação Internacional de
Publicidade [INTERNATIONAL ADVERTISING ASSOCIATION].
Sobre o CONAR relatou o Prof. Boddewyn:
“O Conar do Brasil é provavelmente o mais desenvolvido
sistema de auto-regulamentação encontrado em países
em vias de desenvolvimento e até sobrepuja alguns do primeiro
mundo.”
Desde então, várias delegações de outros
países visitaram o CONAR e, nesse intercâmbio, o Código,
o Regimento Interno e a ideologia privatista serviram de inspiração
a vários órgãos de auto-regulamentação
da América Latina. Até o nome CONAR, criado pelos
pioneiros, veio a ser adotado por alguns deles.
Ainda no plano internacional, outra conquista recente é
digna de destaque: a EASA – Aliança Européia
de Padrões para a Publicidade [EUROPEAN ADVERTISING STANDARDS
ALLIANCE], que congrega as instituições de auto-regulamentação
naquele continente, divulgou este ano o ranking de suas 26 filiadas.
Como se sairia o CONAR se fosse submetido ao mesmo crivo?
Pois bem.
Para orgulho de todos nós, constatou-se que o CONAR atende
a todos os 12 quesitos do gabarito europeu e, desse modo, embora
hors concours, ocuparia o topo do ranking, em posição
equivalente às mais prestigiosas instituições
do mundo ocidental, como a A.S.A. – ADVERTISING STANDARDS
AUTHORITY do Reino Unido e a AUTOCONTROL de Espanha, e acima de
economias desenvolvidas como França, Alemanha e Itália.
Nossas glórias constituem-se em exemplos bem sucedidos de
trabalho voluntário. Desde 1980, em sucessivos mandatos,
378 membros do Conselho de Ética examinaram com isenção
e independência mais de 5.400 casos. O decano do colegiado
e de longe nosso mais assíduo relator é um dos representantes
da sociedade civil, o médico e educador Dr. Pedro Kassab,
integrante da 1ª. Câmara desde a sua primeira reunião,
por indicação do Consº Dr. Homem de Montes, da
ANJ.
Já os 77 membros do Conselho Superior promoveram acuradas
revisões ao Código, durante os mandatos de Petrônio,
Furquim, Ivan Pinto, bem como no atual, de modo a mantê-lo
sempre atualizado.
A história do CONAR é, de fato, grandiosa e merece
ser contada em detalhes. Botando fé nessa pauta, o jornalista
ARY SCHNEIDER consumiu os últimos doze meses em pesquisas
e entrevistas, e hoje está nos brindando com o lançamento
do livro CONAR 25 ANOS. ÉTICA NA PRÁTICA. Muitos dos
presentes vão se reconhecer nos fatos e nas fotos publicadas.
A esta altura, os amigos podem estar se perguntando:
- Diante de tantas glórias, presidente, por que não
correr logo para o abraço aos homenageados desta noite?
É que hoje, a despeito de tantos serviços prestados
à ética da atividade, a auto-regulamentação
se confronta novamente com ameaças de banimento e de restrições.
Traumas ainda recentes ensinaram à sociedade civil o valor
da liberdade de expressão e do direito à informação,
sem os quais, aliás, a publicidade não sobrevive.
Quando banidos ou restringidos aqueles direitos fundamentais, os
danos não ficam limitados às economias internas de
anunciantes, agências, fornecedores e mídia.
Na verdade, o mal maior acomete toda a sociedade quando cidadãos
são privados de receber informações a respeito
de produtos e serviços de seu interesse, conveniência
ou necessidade.
Quanto mais bem informados os cidadãos através da
publicidade, mais aptos estarão a estabelecer comparações
entre produtos e serviços, formar juízos de valor
e preço, e tomar, enfim, decisões de consumo livres
e conscientes.
Portanto, a dimensão econômica da publicidade é
secundária diante de sua dimensão ética, respaldada
no direito de escolha.
Entre nós, a relevância da publicidade para a cidadania
foi reconhecida pela Carta Magna de 1988 por meio das garantias
conferidas à informação como notícia
e como anúncio. Além de banir a censura, os legisladores
constituintes rejeitaram todas as emendas que preconizavam a proibição
de anunciar produtos.
A percepção dos parlamentares de 2005, porém,
não é exatamente a mesma dos constituintes de 88.
Atualmente, no Legislativo, mais de 240 projetos de lei miram a
publicidade e colocam em risco o direito à informação
a respeito de algumas das mais importantes categorias de produtos
e serviços.
No Poder Executivo, por sua vez, a ANVISA – Agência
Nacional de Vigilância Sanitária, através de
resoluções, tenta se sobrepor ao Congresso Nacional
na tarefa de legislar sobre publicidade.
Seja qual for o destino de tais iniciativas, a trajetória
do CONAR não comporta resignação e passividade
perante o Legislativo e o Executivo. Nem mesmo a conduta desabonadora
de um ou outro empresário será capaz de aviltar a
força moral da comunidade publicitária.
Refiro-me à associação da “cleptocracia”
com empresas do setor para fins delituosos, e às relações
promíscuas dos partidos, representantes do povo e "marqueteiros".
No Brasil da Constituição Cidadã não
há isonomia entre a propaganda comercial e a propaganda política.
Ao contrário, existe um imenso abismo entre as exigências
legais e princípios éticos válidos para anúncios
de automóveis, refrigerantes, medicamentos... (apenas para
citar alguns exemplos) ... e a propaganda dos partidos e candidatos,
que estão livres para cometer abusos de toda sorte.
Seria bom se o Legislativo assegurasse igualdade de tratamento
entre eleitores e consumidores. Seria melhor ainda se a reforma
política em andamento fosse complementada por um código
de ética voluntário para propaganda eleitoral e partidária.
Se, por um lado, é inadiável reforçar a distinção
entre as noções de público e privado em todas
as esferas de poder - , no tocante à propaganda se impõe
exatamente o contrário: a legislação que rege
a propaganda política deveria assimilar princípios
que hoje regem a propaganda comercial. Caso prevalecesse a isonomia,
partidos, candidatos e “marqueteiros” poderiam sujeitar-se
às mesmas penas que o Código de Defesa do Consumidor
comina à propaganda enganosa, ofensiva e abusiva.
Convém esclarecer que a propaganda política está
submetida à exclusivamente à Justiça Eleitoral.
Por este motivo, o CONAR não pode cuidar dela.
Movida apenas pelo propósito de servir, nossa instituição
se oferece para apoiar a classe política na tarefa de erigir
uma nova deontologia para sua propaganda. Sabemos que existem políticos
íntegros em grande número, plenamente capazes de responder
a este estímulo que o CONAR, com todo o respeito e muita
confiança, está a lhes dirigir.
Mesmo decepcionados com os desvios éticos que pululam nos
palanques e no horário gratuito dos partidos, encorajamos
a classe política a alcançar melhores práticas
via auto-regulamentação.
Apesar de consternados pelas nódoas provocadas pela má
conduta de uns poucos alheios e que acabaram vitimando a categoria
dos publicitários, - na perspectiva do CONAR reconhecemos
em cada voluntário o ânimo inquebrantável de
perseverar na ética.
A comunidade aqui presente, responsável por uma das melhores
publicidades no mundo, não se afastou de seus ideais e acredita
nos valores que pratica.
Sinto que nos reunimos em boa hora para enaltecer as empresas que,
em respeito ao público, praticam a auto-regulamentação,
bem como aquelas que foram instadas a corrigir seus anúncios
e o fizeram em nome da ética.
É, também, ocasião apropriada para se louvar
o apoio dos veículos de comunicação, que têm
dado efetividade às recomendações do Conselho
de Ética, garantindo ao público informações
e anúncios igualmente honestos e verdadeiros.
A oportunidade é, portanto, imperdível para ratificarem-se
os valores que nos unem, em nome dos quais desejamos fazer por merecer
a confiança dos consumidores, das autoridades e da própria
comunidade que representamos.
Assim, solenemente, renovamos neste jubileu nossos compromissos:
- O CONAR se mantém privatista;
- O CONAR é sustentado pela força moral da ABA,
ABAP, ABERT, ANER, ANJ e CENTRAL DE OUTDOOR;
- O CONAR não aceita subsídios do erário;
é mantido pelas contribuições financeiras
de seus associados e sua governança está a cargo
de voluntários da sociedade civil;
- O CONAR defende as liberdades de expressão e de criação
independentemente de censura, tal como estabelecidas pela Carta
Magna.
- O CONAR reconhece na liberdade de imprensa e no direito à
informação condições indispensáveis
ao Estado Democrático de Direito.
- O CONAR advoga o direito de anunciar produtos e serviços
lícitos, sempre em conformidade com as leis e com a ética.
Acreditamos, amigos do Conar, que os compromissos ora reafirmados,
os ideais e as obras legadas por nossos pioneiros vão inspirar
e animar os próximos 25 anos da instituição.
Desejo, em nome desta Diretoria, que está conduzindo o Conar
há três mandatos consecutivos, agradecer o incondicional
apoio recebido das entidades fundadoras e de nossos associados.
Nada nos faltou:
- Conseguimos instalar nossa sede social à Av. Paulista,
- Estamos inaugurando dentro de mais alguns dias a Biblioteca
Referência sobre Liberdade de Expressão, em conjunto
com a ESPM e, também em parceria com ela, realizaremos
no dia 20 de outubro Seminário Internacional de Auto-regulamentação,
com a participação das nossas congêneres do
Reino Unido e da Espanha.
- E hoje, estamos assinalando esta comemoração
com o lançamento do livro CONAR 25 ANOS. ÉTICA NA
PRÁTICA, graças ao apoio e patrocínio de
vários de nossos associados.
Já encerrando, cumprimento aos homenageados desta noite,
que serão agraciados logo a seguir com o título de
SÓCIOS HONORÁRIOS do CONAR, em razão de suas
relevantes contribuições à ética na
publicidade brasileira.
A eles, os nossos parabéns e a todos o nosso muito obrigado.
Gilberto C. Leifert
Presidente do Conar
nos 25 anos da instituição
Maksoud Plaza, S.P., 29.9.05
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