| Senhoras e senhores
Comovidos, eu, Nanô, Dionísio, Ivan, João Luiz,
Piratininga, Furquim, Mauro, Dr. Kassab e Ministro Saulo Ramos,
agradecemos de coração a esta homenagem e pedimos
desculpas pela absoluta, total e completa falta de modéstia.
Explico: segundo a trigésima oitava edição
do livro Manual de Boas Maneiras para Homenagens em Festas de 25
Anos, os alvos dos agrados - no caso eu próprio e mais os
companheiros citados - devem assumir atitudes pulcras e, com humildade
franciscana, declinar a honra, dizendo-a imerecida.
Mas é que nós achamos que merecemos este reconhecimento
inteira e totalmente. Imagino que se Caio, Geraldo, Homem de Montes
e Dr. Roberto Marinho estivessem aqui, compartilhariam conosco a
falta de modéstia e o orgulho de ver chegar aos 25 anos esta
instituição chamada Conar, uma idéia que, para
ser erguida, demandou nossas maiores energias até tornar-se
a coisa mais importante que fizemos em nossas vidas profissionais,
algo pelo qual gostaríamos de ser lembrados no futuro.
Creio que esta é uma justificativa mais do que válida
para a nossa falta de modéstia.
Vou tentar reproduzir brevemente o cenário do Brasil de
1980, quando nasceu o Conar. Vivíamos em pleno regime militar.
Não se podia afirmar com todas as letras que eram os seus
anos finais. Contava-se com isso, mesmo porque o arsenal de leis
de exceção já estava sendo desmontado. Mas
a certeza absoluta de que se rumava para a democracia plena, isso
não existia.
Pois foi nesse ambiente de incerteza, onde uma regressão
era tema corrente, que um grupo de publicitários decidiu
tomar a si a responsabilidade de estipular regras éticas
para a publicidade.
Tivemos sorte, nesse momento, de contar com pioneiros do quilate
de Mauro Salles, então presidente mundial da IAA, Caio Domingues,
Geraldo Alonso e o brilhante advogado Saulo Ramos. Foram estes homens
que escreveram ou deram rumo ao Código Brasileiro de Auto-regulamentação
Publicitária, aprovado em 1978 durante o III Congresso Brasileiro
de Propaganda, comandado por Luiz Celso de Piratininga.
Logo depois, percebeu-se a necessidade de criar uma entidade capaz
de gerir a aplicação do Código. De novo, um
grupo grande de publicitários se mobilizou para dar ossatura
à entidade. É aí que eu entro na história,
ao lado de Dionísio Poli, representando os veículos
de comunicação, e Luiz Fernando Furquim então
presidente da Aba, representando os anunciantes.Aba, uma entidade
que, à época, mostrava-se bastante preocupada em alinhar-se
ao lado de agências e veículos em prol do mercado.
Este grupo viajou incontáveis vezes à Brasília,
negociando com o governo, na figura do seu então ministro
da Indústria e Comércio, Camilo Penna, forma, estatuto
e financiamento da entidade, pensada para ser uma espécie
de Conselho Federal, formado por vinte publicitários e um
representante do governo e, detalhe importante, financiado por verbas
governamentais.
Foram negociações delicadas e quando pareciam bem
encaminhadas, quase caímos da cadeira ao receber uma sugestão
do jornalista Roberto Marinho. Ele sugeria que se esquecesse da
idéia de um órgão misto e se partisse para
aquilo que hoje conhecemos como ONG, Organização Não
Governamental.
A idéia do doutor Roberto era simples: temos o Código,
temos as pessoas, façamos nós mesmos a instituição,
sem a presença de representantes do governo. Com seu espírito
generoso e decidido, ele garantiu os recursos necessários
durante os primeiros meses para que o Conar se tornasse uma realidade.
O resto, como se costuma dizer, é história.
Uma história que nunca deixou de ter as suas complicações
porque foi dado à instituição o poder até
então inimaginável de aplicar a mais terrível
das punições contra um anunciante: a de impedir que
ele faça contato com seus consumidores. Logo nos demos conta
da força e do alcance de tal punição e como
pesa sobre os ombros de quem tem a responsabilidade de julgar.
Tão grande era esse poder e tão desconhecido entre
nós era o mecanismo da auto-regulamentação
que, antes de tudo, tivemos de lutar e vencer o descrédito
da maioria. “Mas como vocês vão fazer o Código
funcionar?”
Devemos, eu e meus companheiros, ter respondido a esta pergunta
algumas centenas de vezes. Diante da resposta, a cara do interlocutor
não costumava ser muito diferente se disséssemos que
o Código levitaria com a força dos nossos pensamentos.
E, no entanto, o Código levitou e continua levitando, 25
anos passados.
Tivemos dificuldades – e das grandes – inclusive junto
aos próprios publicitários. Ainda me lembro bem de
uma reunião longa e delicada, conduzida aqui mesmo neste
hotel, por mim e Samuel Szwarc junto à elite dos criadores
do país, temerosos de que o Conar fosse a censura com outra
roupa. E, vejam vocês, 25 anos depois, aí está
o Conar, na vanguarda da luta pela liberdade de expressão.
Lembro também dos primeiros casos examinados pelo Conselho
de Ética, onde se forjou a prática da ética
publicitária, que, como toda prática, exigiu discernimento.
Foi sobre mim, por exemplo, que recaiu a responsabilidade de, pela
primeira vez, revogar uma liminar de sustação, convencido
que fui pela palavra de honra do presidente em pessoa do anunciante
e um documento com ares solenes apresentado por ele, tudo isso numa
tarde de sexta-feira.
Só para descobrir, na segunda-feira, que o documento era
falso e a palavra de honra era propaganda enganosa.
Foi esse episódio que me aproximou da figura marcante de
Pedro Kassab, o decano do Conselho de Ética do Conar, descobridor
da farsa. Nos anos seguintes, com a ajuda de Kassab e outros grandes
nomes da sociedade brasileira, o Conar saberia se prevenir contra
o dolo de quem descrê da ética.
Também aprendi muitas coisas desde então e certamente
foi esta experiência extraordinária acumulada que me
levou à presidência do Cenp, o irmão mais jovem
do Conar.
Este aprendizado, que ainda não terminou, se deu na convivência
com pessoas como José Maria Homem de Montes, João
Luiz Faria Netto, Carlos Alberto Nanô e tantos outros, a quem
me desculpo por não citar nominalmente.
Mas vou, de novo, mandar às favas o Manual de Boas Maneiras,
pois acho que faltou incluir nas homenagens desta noite um jovem
advogado que trocou uma carreira promissora no mercado financeiro
pela aventura de dirigir uma entidade sem sede nem orçamento.
Refiro-me a Gilberto Leifert, hoje seu presidente. Ele foi o primeiro
diretor-executivo do Conar, juntamente com a primeira diretoria
que eu presidi. Sem a inteligência, dedicação,
perspicácia e carinho do Gilberto, não existiria Conar
– podem ficar certos disso.
Meus amigos, minhas amigas.
A minha carreira na publicidade aproxima-se do seu final mas já
sei pelo que gostaria de ser lembrado no futuro: pela criação
do Conar.
Como lhes disse, foi um trabalho árduo e também a
coisa mais importante que ajudei a fazer em minha vida, a coisa
que mais me envaidece.
Por quê?
Porque ele é do mais profundo interesse da comunidade e
do mercado publicitário.
Porque todos trabalhamos por ele dedicada e desinteressadamente.
Porque ele foi uma revolução para a publicidade e
para a própria sociedade na medida em que se lançou
sem o apoio oficial numa aventura que a muitos lembrava Quixote
e seus moinhos de vento.
E aqui estão alguns destes Quixotes, conscientes do merecimento
da homenagem mas nem por isso menos emocionados e agradecidos.
Muito obrigado
|