| Certamente a heterogeneidade da população
brasileira é o que, de fato, deixa preciosa nossa massa crítica
cultural. Tenho a exata sensação de que durante um
mesmo dia vários segmentos de nossa sociedade despertam desejosos
de serem ouvidos, sentidos e, mais do que tudo, atendidos. Somos
uma romã polpuda e farta de sementes desiguais, algumas negras,
outras brancas, algumas indígenas, outras imigrantes. A cultura
brasileira é nutrida pelas diferenças étnicas,
intelectuais e etárias. Entretanto, o que mais sabor traz
a esta sopa de falas e gestos é, de fato, a liberdade de
ser e de expressar. No Brasil, cada dia se acorda com um tipo de
sorriso. Mesmo aqueles que não têm dentes podem sorrir
porque quem dá a gargalhada, afinal, é a alma. Brasileiro
não é só nacionalidade; é também
um estilo de ser. Nossa sociedade é solidária, pacifista,
otimista, tolerante e fica feliz quando vê uma bela morena
de fio-dental fazendo publicidade de xampu. A publicidade, neste
sentido, traz ternura, esperança e aconchego para a grande
maioria dos brasileiros. Talvez por isso seja tão delicado
falar em pudor e decência na publicidade brasileira. Por quê?
Simplesmente porque aquilo que para mim pode ser indecente e causar-me
até repúdio, pode ser, para o próximo, uma
expressão artística da arte de amar, uma imitação
divertida da fantasia de cada um ou uma ilimitada coleção
de possibilidades criativas da inspiração humana.
Vale lembrar aqui o significado de “pudor”: sentimento
de vergonha, de mal-estar, gerado pelo que pode ferir a decência,
a honestidade ou a modéstia.
Milton Nascimento já cantou com tanta identidade brasileira:
"Hoje tô de bem com a vida, tô no meu caminho
Respiro com mais energia o ar de meu país
Eu invento coisas e não paro de sonhar
Sonhar já é alguma coisa mais que não sonhar
Para quem não me conhece eu sou brasileiro
Um povo que ainda guarda a marca interior
Para quem não me conhece, eu sou assim mesmo
De um povo que ainda olha com pudor
Que ainda vive com pudor
Queria fazer agora uma canção alegre
Brincando com palavras simples, boas de cantar
Luz de vela, rio, peixe, homem, pedra, mar,
Sol, lua, vento, foto, filho, pai e mãe, mulher"
Acredito que recato e pudor são delicados atributos de um
povo que tem em seu coração bondade, alegria e um
quê de ingenuidade; assim somos nós, brasileiros. Assim
tem sido o desafio dos membros do Conar ao se depararem com a demanda
de nossa sociedade sobre um mesmo tema: “pudor e decência
na publicidade”. O Conselho de Ética do Conar, como
líder de opinião na matéria de ética
publicitária, deve ter uma postura que abrace as expectativas
sociais. Diferentemente disso estaríamos negando nossa desinteressada
colaboração ao bemestar da sociedade brasileira, em
especial aquela sociedade que sistematicamente ouve rádio
e assiste à TV, meios de comunicação que tanto
influenciam o brasileiro. Este desafio tem sido acolhido em nossa
casa como um hóspede de honra. De fato, a decência
e o pudor são interpretados em nossa alma e mente de forma
bastante diferenciada, pois nós, os membros do Conselho de
Ética do Conar, temos idades e vivências bastante diferenciadas,
além de termos formações profissionais e culturais
que passeiam livremente no reino das mais diversas possibilidades.
Mesmo assim, é incrível como o senso comum que nos
identifica como brasileiros é capaz de nos aproximar, nos
aconchegar e, principalmente, nos acomodar em uma mesma poltrona,
a cadeira da sociedade, aquela que se por um lado subtrai, por outro
acrescenta até que se alcance a temperança harmoniosa
do que é correto e, portanto, soberano. Sempre chegamos a
um denominador comum. De fato, não temos notícia de
publicidades indecentes que atravessaram esta casa e que dela saíram
impunes. Ao contrário, sabemos que aquele componente maravilhoso
que faz da palavra “brasileiro” algo maior do que uma
nacionalidade talvez seja o grande responsável pela unicidade
de postura ética que ampara nossa atividade de conselheiros
de um tribunal essencialmente heterogêneo enquanto grupo,
mas absolutamente homogêneo pois composto por pessoas criadas
por uma mesma pátria amada e idolatrada, que nos vem ensinando,
principalmente, a “buscar as coisas” sempre e incessantemente,
com otimismo, solidariedade, tolerância e paz na mente e no
coração.
Claudia Wagner é gerente jurídica e de
Recursos Humanos da Ferrero do Brasil e membro do Conselho de Ética
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