Artigos
Decência e pudor na publicidade
Por: CLAUDIA WAGNER
Data: 08/07/2004

Certamente a heterogeneidade da população brasileira é o que, de fato, deixa preciosa nossa massa crítica cultural. Tenho a exata sensação de que durante um mesmo dia vários segmentos de nossa sociedade despertam desejosos de serem ouvidos, sentidos e, mais do que tudo, atendidos. Somos uma romã polpuda e farta de sementes desiguais, algumas negras, outras brancas, algumas indígenas, outras imigrantes. A cultura brasileira é nutrida pelas diferenças étnicas, intelectuais e etárias. Entretanto, o que mais sabor traz a esta sopa de falas e gestos é, de fato, a liberdade de ser e de expressar. No Brasil, cada dia se acorda com um tipo de sorriso. Mesmo aqueles que não têm dentes podem sorrir porque quem dá a gargalhada, afinal, é a alma. Brasileiro não é só nacionalidade; é também um estilo de ser. Nossa sociedade é solidária, pacifista, otimista, tolerante e fica feliz quando vê uma bela morena de fio-dental fazendo publicidade de xampu. A publicidade, neste sentido, traz ternura, esperança e aconchego para a grande maioria dos brasileiros. Talvez por isso seja tão delicado falar em pudor e decência na publicidade brasileira. Por quê? Simplesmente porque aquilo que para mim pode ser indecente e causar-me até repúdio, pode ser, para o próximo, uma expressão artística da arte de amar, uma imitação divertida da fantasia de cada um ou uma ilimitada coleção de possibilidades criativas da inspiração humana. Vale lembrar aqui o significado de “pudor”: sentimento de vergonha, de mal-estar, gerado pelo que pode ferir a decência, a honestidade ou a modéstia.
Milton Nascimento já cantou com tanta identidade brasileira:

"Hoje tô de bem com a vida, tô no meu caminho
Respiro com mais energia o ar de meu país
Eu invento coisas e não paro de sonhar
Sonhar já é alguma coisa mais que não sonhar
Para quem não me conhece eu sou brasileiro
Um povo que ainda guarda a marca interior
Para quem não me conhece, eu sou assim mesmo
De um povo que ainda olha com pudor
Que ainda vive com pudor
Queria fazer agora uma canção alegre
Brincando com palavras simples, boas de cantar
Luz de vela, rio, peixe, homem, pedra, mar,
Sol, lua, vento, foto, filho, pai e mãe, mulher"

Acredito que recato e pudor são delicados atributos de um povo que tem em seu coração bondade, alegria e um quê de ingenuidade; assim somos nós, brasileiros. Assim tem sido o desafio dos membros do Conar ao se depararem com a demanda de nossa sociedade sobre um mesmo tema: “pudor e decência na publicidade”. O Conselho de Ética do Conar, como líder de opinião na matéria de ética publicitária, deve ter uma postura que abrace as expectativas sociais. Diferentemente disso estaríamos negando nossa desinteressada colaboração ao bemestar da sociedade brasileira, em especial aquela sociedade que sistematicamente ouve rádio e assiste à TV, meios de comunicação que tanto influenciam o brasileiro. Este desafio tem sido acolhido em nossa casa como um hóspede de honra. De fato, a decência e o pudor são interpretados em nossa alma e mente de forma bastante diferenciada, pois nós, os membros do Conselho de Ética do Conar, temos idades e vivências bastante diferenciadas, além de termos formações profissionais e culturais que passeiam livremente no reino das mais diversas possibilidades. Mesmo assim, é incrível como o senso comum que nos identifica como brasileiros é capaz de nos aproximar, nos aconchegar e, principalmente, nos acomodar em uma mesma poltrona, a cadeira da sociedade, aquela que se por um lado subtrai, por outro acrescenta até que se alcance a temperança harmoniosa do que é correto e, portanto, soberano. Sempre chegamos a um denominador comum. De fato, não temos notícia de publicidades indecentes que atravessaram esta casa e que dela saíram impunes. Ao contrário, sabemos que aquele componente maravilhoso que faz da palavra “brasileiro” algo maior do que uma nacionalidade talvez seja o grande responsável pela unicidade de postura ética que ampara nossa atividade de conselheiros de um tribunal essencialmente heterogêneo enquanto grupo, mas absolutamente homogêneo pois composto por pessoas criadas por uma mesma pátria amada e idolatrada, que nos vem ensinando, principalmente, a “buscar as coisas” sempre e incessantemente, com otimismo, solidariedade, tolerância e paz na mente e no coração.

Claudia Wagner é gerente jurídica e de Recursos Humanos da Ferrero do Brasil e membro do Conselho de Ética