| Uma das conseqüências mais curiosas das
múltiplas formas que tomou a comunicação comercial
com o mercado é a necessidade de se rever a antiga definição
de propaganda. De fato, para os estudiosos do assunto, propaganda
é a mensagem veiculada na mídia paga por um patrocinador
e identificada com seu nome ou marca.
Hoje, são tantas as formas de se levar uma marca ao espectador
ou leitor, através da junção do conteúdo
editorial com a mensagem comercial, que isto provoca problemas éticos
que devem ser mais bem discutidos. Este e outros temas relevantes
dessa questão são comentados por Gilberto C. Leifert,
nesta entrevista concedida ao Prof. Francisco Gracioso.
FG – A edição de janeiro/fevereiro
tem como tema principal as mudanças que estão ocorrendo
na natureza e na diversificação da comunicação
com o mercado, afetando bastante o antigo conceito do que é
propaganda, o papel da mídia. Gostaria de pedir a você
que dê a sua visão deste panorama que estamos presenciando
e do qual estamos participando.
Gilberto – O panorama internacional da propaganda
apresenta novas questões éticas. Continua valendo
à pena zelar pela idéia de separação
“entre Igreja e Estado” como pregava Henry Luce [N.R.
Henry Luce (1938-1967) foi co-fundador e editor da revista Time]
ou seja, entre editorial e comercial. Nem sempre os espaços
se mostram tão bem definidos. Sou defensor da separação.
Entendo que os veículos de comunicação têm
enorme responsabilidade. Devem estabelecer seus próprios
limites e defendê-los perante clientes, agências e profissionais.
Em sentido oposto, o recente livro de Al Ries e Laura Ries funciona
como agente provocador: encoraja a invasão do conteúdo.
[N.R. “A Queda da Propaganda – Da Mídia Paga
à Mídia Espontânea”, 2003]. Acho que,
dentro do contexto do que nós conversamos aqui, devemos cobrar
de nós mesmos o respeito às leis, à ética
e ao público a quem servimos, e acompanhar muito atentamente
os movimentos que nos são apresentados como tendências
definitivas, soluções miraculosas, em detrimento dos
princípios éticos dos jornalistas e dos publicitários.
FG – Na verdade, olhando do lado de fora,
isto é, não sendo eu próprio parte da mídia,
e falando de modo geral do panorama mundial – não só
do brasileiro –, tenho a impressão, às vezes,
de que esses novos esquemas de divulgação têm
a participação da mídia, em muitos casos.
Gilberto – Acredito que os mecanismos de
invasão do editorial, as ações de marketing
de emboscada e de geração de oportunidades de mídia
espontânea devam merecer atenção redobrada.
Não me refiro, obviamente, ao merchandising e a outras formas
éticas e lícitas que contam com o consentimento do
próprio veículo. Condeno outras situações
em que alguém é transportado sem pagar a passagem.
Tais situações, a meu ver, estão a merecer
atenção maior. De igual forma, entendo que o público
também rejeita a propaganda comercial tratada como matéria
jornalística.
O Código de Auto-Regulamentação, de 1978,
já pregava a distinção entre anúncio
e editorial. O Código de Defesa do Consumidor, que é
de 1990, em seu artigo 35, perfilha a mesma orientação.
Do ponto de vista prático, o desafio é a gestão
dos espaços éticos e lícitos.
FG – E como fica o papel das agências
de propaganda neste cenário?
Gilberto – O modelo de atuação
das agências enfrenta críticas nem sempre justas, influenciadas
pela questão da remuneração. O que estou tentando
dizer não é novidade: no mundo todo, se busca uma
nova forma de relacionamento comercial – anunciante, agência
e veículo –, e uma nova atitude das agências
perante as necessidades dos clientes e desafios do mercado globalizado.
Também não é novidade que o centro de inteligência,
o centro de competência em matéria de comunicação
continua sendo a boa agência de propaganda, para a qual são
atraídos os talentos de criação, planejamento
e mídia. Sobre este assunto, eu costumo dizer que o sistema
de remuneração que foi desenvolvido no Brasil permitiu
que os Ronaldos e Ronaldinhos jogassem bola em nossos campos. Nossa
propaganda, alinhada na vanguarda mundial, é produto de um
ambiente competitivo amparado em regras que também garantiram
profissionalização, remuneração estimulante
aos empresários e aos profissionais. Os veículos também
foram beneficiados pelo desenvolvimento do mercado. Mas creio que
os maiores proveitos são dos anunciantes, que viram as suas
necessidades de comunicação atendidas com um grau
de excelência verdadeiramente de nível internacional.
FG – E o modelo funcionou muito bem durante
50 anos.
Gilberto – A crise, a meu ver, não
é da propaganda. É da ordem econômica mundial.
Pretende-se que a publicidade opere milagres.
FG – Uma empresa lançou agora o chamado
advertainment, que seria uma nova forma, mais diversificada do que
o velho merchandising. Não vou citar nomes, mas o responsável
por essa empresa, numa recente mesa-redonda aqui na Escola, falou
da crença pessoal dele de que o advertainment tenderá
a desbancar a propaganda comercial propriamente dita, pelo menos
em termos de atenção que provoca. O que você
acha desse tipo de afirmação?
Gilberto – Sabe-se que os governos e o mercado
publicitário têm ímpetos de influenciar ou até
determinar o conteúdo da mídia. E do entretenimento
para o editorial pode ser um passo. As formas de associação
de propaganda comercial com o conteúdo não são
novas, como o barter, por exemplo.
FG – Talvez esteja aí uma nova tarefa
para o Conar.
Gilberto – A chamada “propaganda subliminar”,
que foi estudada por Vance Packard, é proibida também
no Brasil. Até merece ser tratada como lenda. Já o
merchandising, no cinema e nas novelas, é importante fonte
de recursos. A produção de bens culturais e de entretenimento
envolve custos elevados e o merchandising faz parte da equação.
Hoje quase não existe mecenato... Sem apoio comercial, muitas
peças de teatro, produções cinematográficas,
teledramaturgia e shows musicais simplesmente não seriam
realizados. Curiosamente, no meio jurídico ainda existem
opiniões equivocadas a respeito do merchandising, que é
impropriamente confundido com propaganda subliminar. A exposição
da marca de forma não-agressiva, com pertinência, sem
violentar a obra intelectual e, portanto, feita de modo a não
molestar a audiência, é uma prática corriqueira
nos grandes mercados produtores do mundo. O próprio espectador
muitas vezes acha que é merchandising, mas não é.
Exemplifico: o protagonista de uma novela, que aparece dirigindo
um automóvel, em situações perfeitamente corriqueiras.
Os desavisados vão presumir que o fabricante daquele automóvel
contratou ações de merchandising. Como a produção
não contou com apoio comercial de nenhuma montadora, a função
daquele carro naquela cena é apenas de transportar o mocinho.
Nada mais que isso. De outro modo, ele sempre teria de andar a pé,
não é mesmo?
FG –Falando do Conar de modo geral, que
outras coisas você pode contar? Como estão as relações
da entidade com os consumidores?
Gilberto – Hoje, a instituição
desfruta de uma imagem muito positiva, fruto dos julgamentos que
ele realiza. A percepção pública da ação
do Conar decorre dos julgamentos realizados.
FG – Aquilo que chega às manchetes...
Gilberto – Manchetes que não são
buscadas. Não sonegamos informação à
imprensa. O web-site do Conar divulga todas as decisões proferidas
pelas Câmaras de Ética. Mas a Diretoria do Conar não
busca exposição pública; não produz
factóides. O objetivo é julgar anúncios. O
ano de 2003 foi muito importante. Estamos encerrando o balanço
com um número recorde de processos. Isso não significa
que a propaganda brasileira tenha problemas; significa que o Conar
se qualifica e é reconhecido como a entidade encarregada
de arbitrar os conflitos entre os consumidores e a indústria,
e entre pares da indústria.
FG – Na verdade, o trabalho do Conar foi
reconhecido numa pesquisa que nossos professores fizeram, recentemente,
tentando medir a credibilidade de certas atividades e de certas
categorias profissionais. Fiquei surpreso com a diferença
que existe entre a credibilidade que o público atribui à
propaganda comercial – muito alta –, e o descrédito
atribuído à propaganda política e eleitoral.
Nós sabemos que a propaganda comercial é policiada,
disciplinada e regulamentada pelo Conar. A propagada política
e eleitoral, eu creio, ainda não entra na mira do Conar.
Sob esse aspecto então, fica claro que o Conar, ou outro
órgão com essas mesmas atribuições,
deveria ser criado para regulamentar também a propaganda
política e eleitoral.
Gilberto – Acho que não estarei sendo
pretensioso ao afirmar que o Conar contribuiu para reforçar
a credibilidade da propaganda comercial. Recentemente, em artigo
publicado em O Globo [N.R. “Propaganda:
política, religiosa e comercial. Duas medidas e um só
peso” - O Globo] estabeleci paralelo entre as propagandas
comercial, política e religiosa, e exaltei o esforço
bem sucedido da propaganda comercial em defesa da ética.
Tentei mostrar as diferenças.
O legislador, atualmente, encaminha mais de duas centenas de projetos
de lei, com o intuito de restringir, proibir e impor limites à
propaganda comercial. Temos de exigir que nossos governantes e representantes,
que também se servem da propaganda e dos profissionais de
propaganda em suas campanhas, adotem normas éticas. Hoje,
apenas a propaganda comercial é disciplinada por normas éticas
adotadas voluntariamente pela indústria. Vamos torcer para
que os políticos e os religiosos também criem seus
códigos.
FG – Você está falando de coisas
que fazem meditar. Eu vejo aí espaço para que a classe
publicitária – que afinal de contas é uma classe
cidadã – assuma um papel mais agressivo. Talvez através
do próprio Conar, ou do Conselho Nacional de Propaganda,
ou através da nossa Escola que também se qualifica
para isso. Essa sua tese deveria ser lançada publicamente.
Ela é importante para o futuro deste país. Você
próprio acaba de dizer que o que existe e dá resultado
– porque a propaganda comercial, eu repito, provamos com pesquisa,
merece crédito – é fruto da própria publicidade.
Talvez os publicitários, que também fazem propaganda
política, deveriam assumir a iniciativa e propor um código
de auto-regulamentação da propaganda ou da comunicação
pública. O Estado é transitório; a Nação
é permanente. Acho que a nossa classe – a classe publicitária
– tem aí uma grande oportunidade.
Gilberto – E responsabilidade também.
O aprimoramento da comunicação de interesse público,
da comunicação dirigida ao cidadão na dimensão
de eleitor, de contribuinte, poderá avançar muito
no Brasil.
FG – Ainda a respeito do conteúdo
e da mensagem comercial, e falando dos aspectos éticos, inclusive
de personalidades do próprio veículo – jornalistas,
principalmente –, você poderia dar alguns exemplos que
lhe ocorram e possam ilustrar essa nossa conversa?
Gilberto – A decisão de dispor do
próprio nome e imagem cabe ao cidadão e a mais ninguém.
O que se pode indagar é como fica a percepção
do público a respeito da isenção e independência
dos jornalistas. Para analisar fatos econômicos, inclusive
balanços de instituições financeiras, por exemplo.
A separação entre Redação e Comercial
não é mera idiossincrasia dos donos dos veículos
e dos diretores de redação. A credibilidade do veículo
é função direta dos valores cultivados no tempo,
tais como a independência e isenção praticadas
por seus jornalistas e do modo pelo qual esses valores são
transmitidos e reconhecidos. A “separação entre
Igreja e Estado” é boa para todos. Melhor ainda quando
o público consegue percebê-la, e, assim, não
a coloca em dúvida.
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