| Então tem a história do rosbife. Era uma senhora
que fazia um rosbife saborosíssimo, definitivamente maravilhoso,
e um dia alguém pediu a ela a receita. A senhora explicou direitinho,
desfilou todos os cuidados, descreveu os temperos, discorreu sobre
o ponto de assamento, e terminou dizendo que o fundamental mesmo
era cortar as duas pontas da peça antes de cozinhar.
– Mas cortar por quê?, pergunta o interlocutor.
– Não sei, mas foi assim que minha mãe me ensinou.
O interlocutor, incansável pesquisador e, pelo visto, grande apreciador
de rosbifes, pede o endereço da mãe e vai conversar com ela. A resposta
da mãe é igualzinha a da filha. Também aprendera com a sua própria
mãe, àquela altura já bem idosa e vivendo num pensionato. Só perguntando
para a mãe da mãe. Sabe que o pesquisador foi até lá? Pois foi.
Encontrou a velhinha que, depois de puxar pela fatigada memória,
acabou esclarecendo o mistério que, aliás, se eu tivesse mais espaço,
poderia ter esticado por mais algumas bisavós e trisavós.
– Mas que bobagem..., eu cortava as pontas do rosbife só porque,
na época, meu forno era pequeno e não cabia a peça inteira.
Pois acontece muito isso com quem trabalha em propaganda e deixa
de perceber a diferença entre o tamanho do forno e o modo de preparar
a carne. Por exemplo: juro que vi publicado em revista de grande
circulação um anúncio de uma empresa de busdoor que diz assim:
SE VOCÊ PUSER O SEU NEGÓCIO NA NOSSA TRASEIRA, ELE VAI CRESCER
MUITO.
Quase ao mesmo tempo, rolou na televisão uma campanha de revendedores
de automóveis onde o pessoal do Casseta & Planeta faz uma série
de piadas do tipo “Vai levar um carro de duas portas ou vai levar
de quatro?”. Minha opinião: embora as duas boutades ( posso chamá-las
assim?) sejam aparentemente iguais, a primeira é ofensiva e a segunda
não. Porque o humor dos comediantes já é, por ele mesmo, um signo
que os autoriza a essa grossa irreverência, ao passo que o pessoal
da traseira de ônibus não tem concessão, não tem intimidade para
falar assim com ninguém.
De modo que, em propaganda, essa coisa de isonomia não vinga mesmo.
A jurisprudência tem que ser relativizada. Às vezes uma coisa é
uma coisa e outra coisa é a mesma coisa. Tudo depende da ocasião
e da intenção. Nada a ver com tamanho da verba, com a dimensão da
campanha, nem com o prestígio do anunciante ou da agência.
Já acumulo, graças à paciência e generosidade de amigos, quase cinco
anos como conselheiro do Conar.
Esse período todo me permitiu ver que, hoje em dia, e apesar do
exemplo que citei acima, a maior parte dos criadores de propaganda
tem perfeita e plena consciência da às vezes finíssima linha que
separa o chocante do “chocante”, o surprendente do meramente bulinador,
o engraçado do debochado, o provocante do insultante. Nunca vi uma
única peça realmente inteligente sofrer sanção mutiladora nas sessões
de que participei. Na verdade, acho mesmo que, a partir do Conar,
houve ganho de espaço e de liberdade com relação a critérios do
que é ou deixa de ser decente. Critérios esses de alta mutabilidade,
conforme sabemos todos, desde os tempos em que os gregos antigos
consideravam perfeitamente moral, elogiável e saudável namorar garotinhos
nas quebradas acropolitanas.
Esse espaço e essa liberdade são mais ou menos aquilo a que sinceramente
dizia aspirar Caio Domingues, em palestra a que assisti no Rio de
Janeiro há muitos anos, (eu começando a trabalhar em criação e ele
monarquista sempre, reacionário nunca) ainda lançando as bases do
que viria a ser o Conar.
Bom que tenha dado certo, numa terra e num mercado em que quase
nunca alguma coisa dá totalmente certo.
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