Jovens
e publicidade: uma forte identidade
Data: 01/04/2002 |
Jovens adoram publicidade.
O movimento, o ritmo esperto, as cores, a música, as sacadas próprias
dos publicitários, o bom humor, a beleza das imagens, pessoas e produtos.
Tudo convida a um estilo de vida alegre, dinâmico, moderno - jovem,
em uma palavra.
Quer uma prova desta forte identidade? Basta ver como a publicidade
assumiu um papel relevante na formação de padrões de comportamento
jovem nos últimos anos. Atitudes, como eles próprios preferem chamar,
são disseminadas cada vez mais por peças publicitárias para TV, rádio,
cinema, mídia impressa, exterior e internet.
Não sou estudiosa do assunto. Apenas alguém que vive pensando e convivendo
com os jovens no trabalho e em casa. Por isso, me arrisco aqui a traçar
alguns - apenas alguns - fatores determinantes de atitude contemporânea
para o jovem disseminados pela publicidade, pelos artistas, meios
de comunicação e outros formadores de atitude. Vamos lá:
- Independência precoce em relação à família e escola, mas não
um rompimento com uma e outra, pelo contrário.
- Estímulo à socialização, à valorização da amizade, alargando
os horizontes da família, da mesma forma que acontece, por exemplo,
no seriado Friends.
- Valorização da irreverência, do descompromisso, do informal.
Traços crescentes de rebeldia, digamos assim, bem-comportada.
É o caso da proliferação dos tatoos, piercing, cabelos
coloridos, roupas descoladas etc.
- Valorização do meio ambiente, do respeito à natureza, associada
a um consumo crescente de produtos e serviços com viés "responsável".
- Grande consumo dos meios de comunicação, inclusive publicidade.
- Distanciamento de assuntos pesados, como política, economia
e ideologias.
- Desmistificação da sexualidade, graças à forte ênfase dada ao
tema pelos meios de comunicação. Busca de comportamento responsável
em relação ao sexo.
- Busca de formas diferenciadas de ganhar a vida.
Em muitos desses fatores comportamentais a publicidade assume papel
marcante de estímulo; em outros, é simplesmente caudatária, utilizando-se
legitimamente de tendências para promover produtos e serviços.
É notório, por exemplo, o uso na publicidade de cenas e situações
onde o jovem esperto, e mesmo crianças de pouca idade, graças ao maior
volume de informações que detém associado a uma interpretação mais
criativa dos fatos/informações, passa a conversa nos pais ou professores
a fim de conseguir alguma vantagem.
Dificilmente uma peça publicitária, não importa em que meio de comunicação,
que se utilize dessa linha criativa, escapa de uma reclamação do consumidor.
Raramente a reclamação deixa de resultar em abertura de processo ético,
pois o Conar é especialmente zeloso com o tema jovens.
O que vai acontecer nas Câmaras do Conselho de Ética dependerá do
conteúdo da peça.
Há risco físico para o jovem? Então a condenação é certíssima. Há
apenas irreverência? Aí a questão com certeza será discutida longamente.
Irreverência e bom humor esbarram com freqüência em mau comportamento
ou simples falta de educação. Dê uma olhada nos programas humorísticos
de TV, rádio e internet, e entenda o que quero dizer.
Já foi discutido neste espaço, mais de uma vez, o papel da publicidade
na formação dos jovens. O consenso, pelo menos do meu ponto de vista,
é o de que a publicidade não tem o dever de educar o jovem; tem, contudo,
a obrigação de não deseducá-lo.
Fácil de dizer, difícil de praticar quando nós, conselheiros, sabedores
que a sociedade é dinâmica, nos defrontamos com um anúncio onde o
limite entre irreverência e mau comportamento está sendo testado por
um publicitário criativo.
Tenho a impressão que, do ponto de vista quantitativo, o Conselho
de Ética se inclinará, na maioria das vezes, pelo arquivamento da
representação. Já foi observado aqui que o Conar não é um órgão careta.
Como poderia ser careta se foi formado e é mantido exclusivamente
por publicitários e se o Conselho de Ética é formado majoritariamente
por publicitários?
E porque o publicitário brasileiro e o jovem se conhecem e se identificam
tanto é que a nossa propaganda é tão boa, instigante e vigorosa.
É bom que seja assim.
Cristina de Bonis é conselheira da 2a Câmara de Ética
e diretora comercial da Rádio Brasil 2000.
Boletim nº 147/abr/2002
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