Por que,
às vezes, piadas de português são reprovadas pelo Conar
Data: 01/07/2001 |
Alguns meses atrás, o Conar recomendou sustação para
um spot de rádio que reproduzia uma típica piada de português
com direito, até, a personagens chamados Maria e Manoel.
O Conselho de Ética seguiu recomendação do relator - por sinal um
dos mais bem-humorados e liberais conselheiros do Conar e defensor
intransigente da liberdade de expressão publicitária - e votou pela
sustação da peça, parte de uma campanha promovendo serviços de internet.
Para o relator, o conjunto de situações tornou o spot "claramente
desrespeitoso, preconceituoso, discriminatório e capaz de atingir
a dignidade da pessoa humana". Ele não se rendeu aos argumentos da
defesa, por sinal muito bem-feita, de que a propaganda é uma "manifestação
cultural derivada, que busca inspiração em fatos e atos aceitos socialmente.
A propaganda espelha o comportamento social, e quem nunca contou uma
piada de português?".
Eu, claro, já contei várias. Por isso mesmo, tenho certeza que decisões
como esta foram recebidas com narizes torcidos por muitas pessoas
que não conhecem bem os mecanismos da auto-regulamentação publicitária
e insistem em ver no Conar uma reedição organizada de movimentos conservadores,
quando não francamente retrógrados. Quer dizer que piada de português
na propaganda não pode, perguntaram-se essas pessoas? Mas como, se
no resto do Brasil, inclusive em programas de rádio e TV, pode. E
piadas de mulheres, loiras, gays, negros, argentinos, judeus, árabes
e japoneses? Também não podem? Mas no resto do universo conhecido
pode. Que diabo de ética é esta que só vale para a publicidade?
Para começar, uma conclusão apressada desta natureza é típica de quem
não sabe ou não se interessa em saber o que é ética. O Conar não proíbe
- mesmo porque não tem este poder - piada sobre este ou aquele assunto,
da mesma forma que não pode recomendar este ou aquele tratamento publicitário.
Podemos, isto sim, examinar em grupo um problema determinado e, sempre
em grupo, recomendar um procedimento a partir do Código Brasileiro
de Auto-Regulamentação Publicitária. Por grupo, entenda-se publicitários
e representantes de consumidor em número nunca inferior a cinco, mas
que, na média, é de dez.
Estas pessoas não são, posso garantir, conservadoras. Elas são sobretudo
éticas. Ora, há piadas e piadas de português. Em muitos casos, elas
partem, de fato, "da ingenuidade e pureza d'alma típicas dos lusitanos",
alegada pela defesa do spot de rádio; em outros, são realmente
ofensivas e grosseiras.
Uma piada grosseira pode ser repetida à exaustão, mas nem por isso
deixará de ser grosseira. No caso do spot de rádio, um consumidor
escreveu ao Conar reclamando dela. O Conselho de Ética se reuniu,
ouviu os argumentos do consumidor e do anunciante, e julgou que aquela
piada específica era, de fato, ofensiva. Não quer dizer que piadas
não sejam aceitas no Conar. Pelo contrário, pois reunimos lá um excelente
time de contadores de anedotas, encabeçado pelo nosso decano, o Dr.
Pedro Kassab. Esforço-me a cada reunião para honrar essa equipe de
verdadeiros craques da piada.
Resta a comparação entre aquilo que pode e o que não pode na publicidade
e no resto da mídia. Quanto a isso, só posso lamentar que outras instâncias
da indústria da comunicação não contem com um código de ética produtivo,
eficiente e atualizado como o Código Brasileiro de Auto-Regulamentação
Publicitária. Quem sabe um dia...
Mais uma coisa. Meus caminhos profissionais me aproximaram do maior
festival de publicidade do mundo, o de Cannes, uma referência internacional
que a cada nova edição não se cansa de promover a publicidade brasileira.
Vi, ao longo dos últimos meses, milhares de filmes, banners e páginas
de publicidade criados no Brasil e no Exterior. Muitos deles lançam
mão da malícia, da sensualidade e do humor, mas, que coincidência!
Nenhum deles seria reprovado pelo nosso Código. Coincidência? Não,
com certeza não. A ética é um dos elementos de ouro da publicidade,
assim como a criatividade, a inteligência e a estética.
O caso descrito neste artigo é a Representação nº 137/00, cujo resumo
está na nos Acordãos de outubro/2000.
Enio Vergeiro é diretor de Desenvolvimento de Mercado de
O Estado de S. Paulo e presidente da 2ª Câmara do Conselho de Ética.
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