"Todo mundo
faz".E a publicidade?
Data: 20/10/2001 |
Numa página dupla de revista, um anúncio mostra a imagem
de um carro esporte em direção a uma estrada repleta de árvores e,
na página ao lado, a chave do carro, presa a um chaveiro com a inscrição
"ligue o foda-se". O anúncio passa a idéia de despreocupação e tranqüilidade
de quem está dentro do carro. Sua intenção é mostrar que o usuário
de tal carro, quando está dentro dele, "desliga-se" dos problemas
e preocupações, disposto apenas a "curtir" o prazer daqueles instantes,
as coisas 'boas' da vida.
O anúncio foi questionado pelas 1ª e 5ª Câmaras do Conselho de Ética
do Conar por utilizar uma palavra considerada de baixo calão em sua
chamada, o que é desaconselhado pelo Código Brasileiro de Auto-Regulamentação
Publicitária. Surge, com isso, mais uma vez, a discussão sobre a publicidade
que aborda usos e costumes.
Já é antigo o fato de o tratamento de características próprias aos
receptores e a seus ambientes de vida ser uma das estratégias mais
utilizadas pela publicidade para se aproximar do seu público e se
comunicar com ele de forma adequada e persuasiva... Quanto mais uma
mensagem envolver o produto/serviço anunciado em situações típicas
da vida das pessoas, mais terá chances de promover identificação com
seu público, mostrando o quanto é próprio a ele, o quanto é adequado
a suas necessidades, expectativas, desejos, estilo, vivências. Ao
desenvolver essa abordagem, no entanto, a publicidade vai além da
simples exposição do produto/serviço e de suas formas de uso. Ela
passa a fazer referência a cenas do comportamento humano em geral,
onde as formas de uso do produto cedem lugar às formas de uso dos
costumes, estilos, procedimentos e valores.
O anúncio em questão não foge dessa tentativa estratégica.
"Ligue o foda-se" é uma expressão usual, especialmente na região Centro-Oeste
do Brasil, que significa "dar de ombros" para as preocupações, como
se se ligasse um dispositivo (a chave do carro!) que afastasse os
problemas naquele momento. O que foi questionado não é a possibilidade
de os anúncios publicitários valerem-se da utilização de usos e costumes
próprios a determinada cultura ou região, mas a validade do meio escolhido
para expressá-los - o baixo calão. A interrogação que surge, e que
surgiu nas reuniões dos conselhos de ética a esse respeito, é se o
calão já é ou não culturalmente aceito. Mas o que ou quem indica que
determinadas práticas encontram aprovação na sociedade? O fato de
essas práticas serem veiculadas na mídia livremente? Ou o seu uso
constante pelos sujeitos? É interessante recordar as advertências
de Jean Baudrillard, sociólogo especializado na observação do comportamento
contemporâneo. Segundo ele, a abordagem pública e/ou o relançamento
constante de apelos, fatos, expressões, sugestões de uso... contribuem
para a naturalidade do seu tratamento e da sua prática. Naturalizada,
uma tendência de comportamento torna-se fato comum. As pessoas se
acostumam a ela, passam a aceitá-la sem se preocupar se a aprovam
ou não, sem refletir a seu respeito. Nesse estágio, ultrapassam-se
as considerações sobre o certo e o errado. A preocupação deixa de
ser encaixá-la em um ou em outro para voltar-se para a participação
do grupo que a pratica. Se seu uso desconsidera, banaliza certos valores,
concepções, costumes, respeitados e praticados até então, promove
a indiferença aos mesmos. Para Baudrillard, é nesse jogo entre a exaltação
de certas características e o desprestígio de outras que se formam
as tendências predominantes do momento. Não que a maioria das pessoas
concorde com elas, nem que sejam as suas preferidas, menos ainda que
sejam fruto de suas escolhas racionais, mas tornam-se os estímulos
predominantes, as ofertas mais presentes no momento: o que mais se
usa, o que mais se fala, o que mais se vê, o que "todo mundo faz".
Nem sempre, então, se pode dizer que tal atitude é costume porque
a sociedade o aprova.
Antes, talvez, se deva esperar menos posicionamentos críticos na sua
adesão por parte de quem está mergulhado numa cultura que já convive
com o hábito do seu uso.
O fato de as pessoas terem se ambientado num contexto que considera
o calão, por exemplo, natural, tende a ofuscar a caracterização do
seu uso como problemático e ofensivo, transformando-o num signo para
expressar algo, como um estado de espírito.
Essa reversibilidade do sentido dos costumes, independentemente do
juízo de valor que se faça a seu respeito, é fruto de um aprendizado
cultural. Tudo o que é dito, mostrado, abordado, acaba assumindo um
caráter referencial que se reforçará proporcionalmente ao número de
vezes em que for mencionado, seja na fala (de alguém), (em um) comportamento,
música, filme ou anúncio...
Nesse sentido, a participação da publicidade na divulgação das características
sociais e culturais chama a atenção para a responsabilidade do profissional
na constituição estrutural do que é dito e mostrado nas suas abordagens.
A tentativa de "espelhar" o comportamento social é uma estratégia
que possui implicações a serem consideradas. Em cada caso, não é apenas
o fato cultural abordado que está em jogo, mas o que, por meio da
menção a ele, se está ajudando a reforçar na sociedade: costumes,
tipos de relacionamentos, níveis de educação... A questão não é se
a publicidade será ou não a "ponta-de-lança" da divulgação de determinada
tendência, ou se divulgará algo não totalmente aceito num contexto,
ou mesmo se só aborda o que já é visto, ouvido e praticado sem problematizações,
mas se se quer caracterizar o seu espaço como promotor dos mesmos.
Essa resposta precisa ser formulada cada vez que o publicitário se
debruçar sobre sua tarefa. E, nesse momento, serão seu bom gosto,
bom senso e sua responsabilidade ética que o farão refletir sobre
os limites das estratégias que pretende usar em nome do que deseja
que se torne o que mais se usa, o que mais se fala, o que mais se
vê, o que, afinal, "todo mundo faz".
Mariângela Machado Toaldo é doutoranda em Comunicação Social pela
PUC, onde leciona ética, bem como na ESPM. É membro da 5ª Câmara do
Conselho de Ética. |
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