| Transcrevo, a seguir, algumas idéias que me ocorreram
ao longo de uma reunião do Conselho de Ética do Conar.
1 - 9h da manhã. Pontualidade, gentileza e bom humor são características
marcantes dessas reuniões. As pessoas realmente gostam de estar
aqui. Isso vale para os conselheiros e também, não raro, para as
partes envolvidas. Não há sinais visíveis da pressão do dia-a-dia,
agravada pelo trabalho extra gerado pelo Conselho. Claro que estamos
falando com um extrato especial do mercado publicitário. Estou sentada
entre o dirigente de uma importante associação e o principal executivo
de vendas de um influente veículo de comunicação. À minha frente,
sentam-se o diretor de marketing de uma multinacional e a responsável
pela seção de consumidor de um grande periódico. A reunião é conduzida
pelo presidente de uma tradicional agência.
2 - Por que estas pessoas estão aqui? As motivações são múltiplas,
mas creio que foram escolhidas para integrarem o Conselho de Ética
por se tratar de pessoas que se destacam pela competência, clareza
das idéias e compromisso com a ética e o desenvolvimento da atividade
publicitária como um todo.
3 - 10h. Copeiras renovam o cafezinho e a água, trazendo também
petit fours. Trata-se de uma novidade relativamente recente
no Conselho de Ética. As reuniões do Conar são espartanas. O casarão
na Rua Bahia é antigo, não propriamente pequeno, mas com certeza
sem espaços ociosos; os itens de conforto para conselheiros e partes
são restritos.
4 - 10h20. Minha vez de relatar um processo está chegando. Ser sorteada
como relatora de um processo ético é uma grande responsabilidade,
além de demandar uma quantidade razoável de trabalho. Como o processo
envolve duas empresas associadas ao Conar, tentamos uma conciliação
dias atrás. Trata-se de uma negociação intrincada, que começa pela
escolha da data da reunião - é preciso, às vezes, fazer coincidir
meia dúzia de agendas.
Uma reunião de conciliação exige intenso preparo na busca de caminhos
inteligentes capazes de aparar as arestas, considerando que elas
estejam bem definidas. É todo um processo concentrado no intervalo
de poucas horas. A psicologia é uma arma importante.
5 - Como as partes não chegaram ao consenso na tentativa de conciliação,
vamos em frente com o processo. Os advogados enviaram seus argumentos
por escrito, juntando provas, laudos, filmes, anúncios, antigos
processos, embalagens, amostras etc. Não raro, um processo ético
excede os dois quilos de peso. Tudo isso tem de ser analisado em
minúcias pelo relator, confrontado com o Código Brasileiro de Auto-Regulamentação
Publicitária e seus anexos e súmulas. A visão do relator sobre o
caso deve ser sintetizada em relatório e parecer que serão discutidos
e votados pelos demais conselheiros da Câmara.
6 - O parecer deve estar bem fundamentado. O Conselho de Ética freqüentemente
derruba votos de relatores. Isto acontece porque o Conselho não
hesita em praticar o contraditório. O debate é parte indissociável
da auto-regulamentação. Diria que um notável mecanismo de equilíbrio
faz com que as câmaras do Conselho de Ética reúnam pontos de vista
divergentes, que sabem se impor dentro das normas da convivência
civilizada. Na hora de votar, as inclinações conservadoras e liberais
se manifestam cada qual a seu modo; é quase impossível prever o
voto de um conselheiro. Temos aqui um conselheiro que é absolutamente
intransigente quando a questão envolve menores - diria que, se dependesse
dele, as crianças sequer apareceriam em publicidade. Mas quando
a questão é relativa a costumes, jargão, comportamento, ele torna-se
um liberal convicto.
7 - Quando digo conservador, não entenda careta. O Conselho de Ética
não é uma entidade careta. Nem poderia, pois é formado, em grande
parte, por publicitários.
8 - 13h. A reunião chega ao seu final. O dia foi proveitoso. Saio
tentando adivinhar se "aquele" caso retornará para novo julgamento
em forma de recurso. E as garotas da secretaria me informam que
fui sorteada para ser a relatora de mais um processo. Que bom!
Mariângela, especialista em propriedade intelectual, é executiva
da área jurídica da Johnson&Johnson e é membro da 2ª Câmara
do Conselho de Ética do Conar. |