| Representação nº 060/84
Denunciante: Conar, de ofício, mediante queixa de consumidor
Denunciado: anúncio "BATATA FRITA FÜLLER"
Anunciante: FÜLLER INDÚSTRIA DE MASSAS, BISCOITOS E SALGADINHOS
S. A.
Agência: AGÊNCIA UM PROPAGANDA LTDA.
Relator: Cons.º EMMANUEL ROBERTO P. DIAS
O Anúncio
O anúncio (comercial) era protagonizado por um "gago" solicitando,
com muita dificuldade em ser entendido, o produto do anunciante:
Garçom - Pois não?
Freguês - Eu quero ba...ba...
G - bacaxi? bacate?
F - ba...ba...batatinha...
G - Ah! Batatinha acabou...
F - Pu...
Locutor: Vá direto ao assunto, se você quer batatinhas peça batatinha...
F - da Fi...Fi...Fi...
Locutor - É natural, crocante e desmancha na boca. Exclusiva de
Füller.
A Representação
A representação foi inspirada em queixa de consumidor gaúcho, o
publicitário Paulo Wolf, por se vislumbrar no anúncio um desrespeito
às pessoas que apresentam o mesmo problema caricaturado pelo personagem
central. O processo fundamentou-se nos artigos 1º, 19 e 34, letra
"c" do CBARP.
A Defesa
A defesa se encontra bem resumida na apresentação do parecer do
Sr. relator, adiante transcrito. Fez-se acompanhada, no entanto,
de várias manifestações que, pela representatividade de seus signatários
merecem ser reproduzidas:
Documento 1
Referendo do Clube de Criação de Porto Alegre, assinado pelo seu
Presidente Roberto Callage "o comercial utiliza como recurso de
comunicação a figura de um personagem que gagueja ao pedir o produto
Batatinha".
É por demais evidente no comercial, que a dificuldade de falar
do personagem é usada como caricatura e efeito de humor, sem qualquer
sentido de expor ao ridículo, ofender ou desrespeitar pessoas que
tenham este tipo de dificuldade. O objetivo de dar o tom caricato
ao personagem fica ainda mais expresso quando, imediatamente após
a ação, o locutor acrescenta: "Vá direto ao assunto, peça batatinhas..."
O riquíssimo universo de comportamentos, tipos e atitudes humanas
é uma fonte em que a propaganda sempre se utilizou para a criação
de comerciais e há vários exemplos do uso bem-humorado das figuras
do "gordo", do "efeminado", do "trapalhão", do "louquinho", do "baixinho",
sem ofender as pessoas que possuem estas características, nem desrespeitar
o consumidor.
Depois de ouvir colegas de criação e várias opiniões de consumidores,
o Clube de Criação concluiu que não há nenhum problema neste comercial
que justifique sua denúncia ao Conar e que o recurso da caricatura
utilizado é muito claro, não dando margem a dúvidas.
Documento 2
Parecer da Sra. Clarice Martins de Castro, psicóloga, CRP 595:
"Marshall McLuhan, professor de Literatura Inglesa no Canadá e
Professor em várias Universidades dos Estados Unidos, foi e continuará
sendo o Papa da Comunicação no mundo. E é com McLuhan que iniciamos
nosso ponto de vista sobre o presente caso.
"Talvez que o efeito mais comovente e familiar da TV seja o comportamento
das crianças. Desde o aparecimento da TV, as crianças costumam ler
com os olhos a apenas 15 centímetros, em média, da página, independentemente
das condições de suas vistas. Procuram levar para a página impressa
os imperativos da total envolvência sensória da imagem da TV. Com
uma perfeita habilidade psicomimética, executam as ordens da imagem
televisionada. Prestam atenção, aquietam-se e envolvem-se em profundidade.
É o que aprenderam a fazer na fria iconografia do meio das estórias
em quadrinhos. A TV levou o processo bem mais adiante. E de repente
as crianças se vêem transportadas para o meio quente da palavra
impressa, com os seus padrões uniformes e rápido movimento linear.
Inutilmente tentam ler em profundidade. Lançam na palavra impressa
todos os seus sentidos - e ela os rejeita. A imprensa exige a faculdade
visual nua e isolada, não a sensorialidade unificada. A câmera de
cabeça de Mackworth, quando aplicada a crianças que assistem à televisão,
revela que seus olhos acompanham, não as ações, mas as reações.
Os olhos quase não se desviam dos rostos dos atores, mesmo durante
as cenas de violência."
Ora, posto este quadro, cabem outras reflexões: A TV, que é a soma
do rádio e do jornal, passa a ser, automaticamente, um "audiovisual
ritmado". Este permanente ritmo da televisão, na criança, tem o
poder maior de prender a sua atenção. Quem, em casa, em meio aos
seus, se der ao mínimo trabalho de observação, ficará maravilhado
com as "respostas" de participação que terão de seus filhos frente
às inúmeras situações que se desenrolam frente aos seus olhos. São
desenhos animados, filmes, telenovelas, telejornais e comerciais.
A dificuldade que toda a criança tem em seguir enredos de filmes
e telenovelas, pela própria extensão e o enorme tempo dedicado a
esses eventos, não lhe causa tanto interesse quanto as "pílulas"
que lhe aparecem, de tempos em tempos, cada uma com uma mensagem
nova, assemelhando-se aos desenhos animados e suas fantasias, lhe
causando as mais lindas reações que podemos testemunhar em nossos
lares. São os comerciais. Que, mesmo com seus "monstros", a faz
deixar de lado os seus brinquedos para prestar atenção ao receptor
de TV. E quando as crianças chegam tarde, deixam claro sua tristeza
e frustração porque não puderam assisti-lo. Como a propaganda há
muito tempo vem explorando uma forma de comunicar através do humor
e como este não tem idade, pois ele nos conota às suas fantasias
de circo e teatrinho, o método é perfeito para se chegar às crianças.
Ora, quem despido de toda e qualquer influência pode afirmar que
a mensagem, ora em pauta, não tenha sido calcada na temática do
humor? Não há outra forma de encará-la. Vamos a um exemplo prático:
em meio a quatro crianças que variam de 3 a 9 anos de idade, quando
assistem a este comercial, e fazem questão de assisti-lo, observamos
seus rostos; estão predispostos ao riso. E neste clima de desconcentração
acompanham alegres, ajudando o personagem a concluir o seu pedido.
E o personagem que interpreta o garçom leva a pior. Chamam-no até
de burro, pois não entende o que o cliente quer. Para as crianças,
em decifrando a mensagem, se posicionaram a favor do cliente, despertando
nelas o espírito de colaboração. Além disso, para elas, a coisa
se assemelha mais a um joguinho de adivinhação, que é parte de seu
dia-a-dia. Joguinho, onde temos de adivinhar em cima de metáforas
ou meias palavras, o que estas significam. E aqui cabe o registro.
Nunca, em momento algum, nos pareceu que este comercial tivesse
algo de negativo quanto a uma possível influência comportamental
nestas crianças. Muito pelo contrário por sinal, pois a participação
é positiva e descontraída. E se analisarmos do ponto de vista pedagógico
podemos deduzir que, em imitando o personagem, se isto ocorresse,
elas, as crianças, estariam, por conta, fazendo um treinamento foniátrico
em relação a facilitar sua forma oral de expressão. Do ponto de
vista psicológico e em nível técnico deste, a coisa se amplia ao
mesmo tempo que se sedimenta. Um dos mais ricos e sempre atuais
recursos pedagógicos, utilizado inclusive em psicoterapia, é a dramatização.
A criança tem uma incrível capacidade de identificação e imitação
como também um alto senso crítico e de imitação que muitas vezes
em nome da "educação" lhe inibimos. Mas esta espontaneidade não
só deve ser oportunizada como estimulada, pois através dessa realidade
vai extrair os elementos que irão compor o seu universo interno
e elaborar suas fantasias de nível inconsciente. Mais do que o comum,
chama-lhe a atenção o bizarro, os animais e a mitologia. E são desses
elementos que se utilizam a literatura, o teatro, o cinema e a televisão.
O patológico está nos meios de comunicação como na nossa realidade,
pois é destas que eles se alimentam. Convivemos tranqüilamente com
a dislalia do Cebolinha, com o sigmatismo do Mussum, com a tartamudez
e limitrocidade intelectual do Dirceu Borboleta (O Bem-Amado), o
transexualismo valorizado na figura de Roberta Close, a análise
do cotidiano na crítica bem-humorada de Chico Anísio e Jô Soares.
A tartamudez, a disfemia ou como é comumente conhecida a "gagueira",
é um problema de linguagem de origem neurológica ou emocional que
se manifesta na dificuldade de expressão correta das palavras, através
de vários tipos de emissões sonoras dispensáveis. A utilização de
um personagem com esse tipo de patologia em comercial de televisão,
portanto, não nos parece negativa a ponto de provocar qualquer regressão
em nível de fala em crianças. Como algo inédito, pode chamar a atenção
de crianças que nunca se defrontaram com o problema e talvez levá-las
a uma imitação temporária. Cabe, a quem lhe acompanha a educação,
o esclarecimento simples e adequado e não a valorização da situação
que se desgaste naturalmente. Como em outras situações. (PoA, 15.7.1984)"
Documento 3
Parecer da Sra. Maria Helena Weber, professora da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade do Vale do Rio dos
Sinos, no Curso de Comunicação Social e bacharel em Propaganda,
Publicidade e Relações Públicas:
O problema da "veracidade" da publicidade deve pôr-se da seguinte
maneira: se os publicitários "mentissem" verdadeiramente, seria
fácil desmascará-los - só que não o fazem - e, se não o fazem, não
é por serem demasiado inteligentes, mas sobretudo porque a "arte
publicitária" consiste principalmente na invenção de enunciados
persuasivos, que não sejam nem verdadeiros, nem falsos (Boorstin).
A publicidade é palavra profética na medida em que não leva a compreender
ou a ensinar, mas a esperar. O que ela diz não supõe verdade anterior
(a do valor de uso do objeto), mas a anterior confirmação por meio
da realidade do sinal profético que emite. Tal é o seu modo de eficácia.
Faz do objeto um pseudo-acontecimento que irá tornar-se um acontecimento
real da vida quotidiana, através da adesão do consumidor ao seu
discurso. (...) (Baudrillard, Jean - A Sociedade de Consumo).
O poder da linguagem publicitária já extrapolou todas as dimensões
e a capacidade de respostas do ser humano, na medida em que toda
e qualquer ação pode ser justificada pelo sistema capitalista. A
ética e o respeito somente são avaliados quando uma instituição
ou algum "fanático consumidor" - tão bom se todos o fossem! - gritam.
Afora isso, tudo é possível e, aos produtos e serviços, cabe o importante
papel de, criativamente, explicarem que a realidade "não é tão ruim!"
e "um dia seremos iguais aos felizes usuários, de alguns produtos
diariamente apresentados". Neste sentido, a ética publicitária está
proporcionalmente em equilíbrio com o lucro a ser obtido e o efeito
de compra no consumidor. As teorias e os códigos de ética que refutam
esta afirmação são, publicamente, desmoralizados pelos próprios
anúncios.
Em países capitalistas, como o Brasil, as regras deste sistema
não permitem a defesa - pelo menos sistemática - do consumidor.
O poder do capital e as vinculações com o poder definem as regras
e o consumidor é sempre um alvo classificado em termos de espaço,
tempo, classe social e poder aquisitivo. A propaganda, no Brasil,
é, sem dúvida, mais insistente e dominadora do que o próprio conteúdo
informativo e de entretenimento dos meios de comunicação, que têm,
inclusive, sua interferência direta. O consumidor, por sua vez,
parece a cada dia, mais amortecido e acostumado a ver sua escala
de valores sendo modificada ou, à moda de produtos ou idéias, interferindo
em seu cotidiano. O questionamento é, apenas, feito pelos teóricos
da comunicação e não chega a mudar os padrões de criatividade publicitária,
que é o resultado da liberdade do sistema capitalista, no terceiro
mundo, em relação ao lucro.
O que poderia ou não ser considerado como afronta ao brasileiro,
em termos de publicidade: a utilização da mulher, por exemplo, confundida
com tapetes, bifes à milanesa ou a uma peça de vestuário? A apresentação
de crianças que, sem dúvida, combinam mais com a Suécia, do que
com o Brasil?; ou a apresentação de felizes famílias no supermercado,
onde o preço e a qualidade não representam qualquer problema à situação
média da população brasileira?
Os exemplos são inúmeros e todos podem ser classificados dentro
de níveis de felicidade adquirível ou padrões de beleza que correm
paralelamente à realidade. As contradições entre a fantasia publicitária
e a realidade possível parecem que já se tornaram assimiláveis pelos
consumidores. O consumo parece ter a sua própria lógica e o indivíduo
passa a ter sua função social dentro dela. Assim, conforme classifica
Jean Baudrillard, o corpo passa a ser o mais belo objeto de consumo:
"o corpo como Capital e Feitiço..."
Pode-se afirmar que, na ótica publicitária explicitada através
dos comerciais, há um tipo de brasileiro que não combina muito com
o noticiado, o brasileiro encontrável nas esquinas, ou reivindicando.
Então, quando tudo é permitido e quando através do corpo tudo é
possível porque "só a partir dele está a felicidade..." pode-se
concluir que para os problemas físicos não há espaço. As palavras
como "feio", "anomalia" ou "defeito" e outras esteticamente desequilibráveis,
não podem ser jogadas junto aos produtos, exatamente porque poderiam
aproximá-los de outras dimensões da realidade. O defeito de fabricação
de um produto não pode aparecer num comercial, bem como os problemas
do homem, embora as soluções sejam diferentes. O humor e a abordagem
normal destas questões não são permitidas porque contradizem os
padrões de beleza impostos pelo sistema publicitário, que nada mais
é do que a ponta colorida do capitalismo. Portanto, a abordagem
de problemas físicos do corpo, como o mais belo objeto de consumo,
é proibido.
Os preconceitos em relação ao corpo podem aparecer, quando relacionados
a alguma campanha que defina o defeito físico como parte de um grupo,
de uma minoria que necessita de auxílio, compreensão social e atitudes
beneficentes. Há uma perfeição ilusória do ser humano, em torno
da qual a propaganda quer que haja uma identificação e assim possa
ser alcançada, através de determinados produtos ou serviços anunciados.
No entanto, é bom lembrar que esta perfeição é relativa e que há
milhares de pessoas que jamais se aproximarão de tal padronização.
Qual é o problema, então, de incluirmos este tipo de pessoas em
comerciais?
O comercial que vende batatas através de uma manifestação de gagueira,
como instrumento de humor e de criatividade utilizou uma situação
"menos normal" e "menos perfeita". No entanto, classificá-lo como
agressivo ou como ofensivo às pessoas que têm este tipo de problema,
permanente ou eventualmente, é, no mínimo, assumir a postura de
defesa de que só um corpo perfeito cabe no espaço comercial.
Classificar como corajosa a introdução do problema da gagueira
num comercial pode ser mais coerente com a realidade, embora possa-se
duvidar da adesão do consumidor à idéia, para o qual, este tipo
de comercial sem dúvida é desconfortável, na medida que lembra que
nem todos os seres humanos têm voz e entonação adequadas à apresentação
do "Jornal Nacional" ou fazer declarações de amor a Bruna Lombardi,
numa telenovela.
A estética publicitária parece justificar qualquer tipo de abordagem
e como já foi salientado as questões éticas são utilizadas, muito
mais quando o padrão normal de agressão é quebrado que uma análise
sistemática de defesa do consumidor, exposto a milhares de anúncios
e apelos que contrariam sua própria vida. Um consumidor que é agredido,
também, por uma política econômica, pelas falácias informativas
sobre a realidade brasileira e pela sua impotência diante do aparato
de apelos comerciais que tentam convencê-lo de um mundo muito melhor,
permitido aos que acreditam na utópica realidade publicitária.
Os meios de comunicação de massa, especificamente o processo publicitário,
são um dos vários fatores atuantes na formação do ser humano e na
obtenção de uma ação. A não ser em casos excepcionais, por exemplo
na propaganda ideológica aliada à censura, a comunicação massiva
não é suficiente para produzir um tipo de comportamento. Assim,
pode-se afirmar que todos os tipos de comerciais se sustentam mutuamente,
quanto aos padrões de beleza, de perfeição do ser humano e da sociedade
e ao possível sonho imposto ao consumidor. São insuficientes, entretanto,
quanto ao mascaramento da realidade e podem acentuar contradições.
No caso específico, do "defeito físico" atribuído à gagueira e
utilizado num comercial, a contradição está entre a perfeição do
corpo - constante e obviamente cantada pela propaganda - e as imperfeições
normais do corpo humano, projeta-se rapidamente e, exatamente, por
não ser normalmente utilizada. Algo assim como uma comparação explícita
entre a realidade e os aspectos comuns do ser humano e a colorida
fantasia das técnicas publicitárias.
Há perguntas que ainda não foram respondidas, embora integrem há
muitos anos os projetos de pesquisas de cientistas e interessados
em comunicação. Questões que abordam, em termos gerais, os problemas
do efeito da comunicação, em todas as situações, sobre o ser humano
e questionam, ainda, os níveis de absorção possível deste em relação
aos apelos, sejam estes de informação, de entretenimento, publicitário,
políticos e outros. A realidade só cabe em alguns minutos de noticiário
e, mesmo assim, se adequada aos padrões da emissora.
Considerando os padrões estéticos dos meios de comunicação e, especificamente,
da propaganda, o "anormal" é a classificação que contesta a excessiva
beleza e o perfeccionismo do ser humano e da realidade, aos quais
o consumidor está acostumado. No entanto, o enquadramento do que
é bom ou ruim; do que é belo ou feio; normal ou anormal, em termos
de propaganda, tem a mesma relatividade da censura quando tenta
definir o tipo de informações e o tipo de realidade que devem chegar
à sociedade. No caso então de um distúrbio como a gagueira aliada
ao consumo de batatas, o que existe é uma discussão da relatividade
dos padrões de beleza e a moral do consumo. Está em jogo a ordem
dos valores atribuídos e vinculados à definição da perfeição física
e sua apresentação. (PoA, 13.7.1984)."
Documento 4
Declaração do médico Dr. José Ovídio C. Waldemar, CREMERS 5828,
domiciliado e residente em PoA membro da Associação Brasileira de
Psiquiatria:
"O comercial "batatinha da Filler" apresenta os personagens centrais
muito caricaturados. São mostrados bastante ansiosos e atrapalhados.
Foram construídos com o evidente intuito de fazer rir. Parecem-me
muito distanciados de possíveis figuras reais e é muito remota a
possibilidade de serem confundidos com representantes de determinadas
minorias (doentes ou vendedores).
Documento 5
Depoimento do escritor Luiz Fernando Veríssimo:
"O comercial das batatinhas Filler me pareceu criativo e bem-humorado,
sem nada de ofensivo. Pelo contrário, cria até uma empatia do público
com o personagem que não consegue se fazer entender. O humor sempre
se utilizou das fraquezas, dificuldades e anomalias do ser humano
sem necessariamente querer diminuí-lo. Este é um caso em que foi
usado positivamente."
Documento 6
Depoimento assinado pelo Dr. Sabino Loguércio:
"As vantagens de ser gago. No Município de Bagé, Rio Negro era
uma vila progressista, berço dos Loguércios, que hoje infestam todos
os recantos desta pátria. Mais tarde, recebeu o nome de Hulha Negra,
pela razão óbvia de ser o carvão mais importante do que o rio, naquelas
bandas. Não sei se a mudança do nome deu azar, mas na época da 2ª
Guerra Mundial já era possível detectar os primeiros sintomas da
moléstia, nesta paródia do "Adeus Mariana", de Pedro Raimundo:
Trabalho em Hulha Negra na mineração/Arranco o dia inteiro um monte
de carvão
Esperei pelo aumento, mas não veio nada/Adeus Mariana, que vou
pra charqueada
E o co-autor - de linguajar mais tosco - entrava com o estribilho:
Eu vô s'imbora, ganhá dinhêro/Pruqui u aumento veiu só p'rus ingenhêro!
A charqueada a que se referia o verso era Santo Antônio, lugarejo
que ficava a pouco mais de três quilômetros de Hulha Negra, antes
Rio Negro. Santo Antônio era a opção natural para a mão-de-obra
não qualificada. O sujeito que arrancava carvão das entranhas da
terra podia perfeitamente arrancar a buchada da barriga do boi.
A charqueada, a estação de trem e a venda (nome pomposo que se dava
ao botequim) eram as atrações turísticas básicas da região. Futebol,
e do bom, só em Rio Negro. Meu pai nascera em Rio Negro, mas, como
ferroviário, morava em Santo Antônio. Nossa casa era a estação.
Pois lá, em Santo Antônio, que tudo começou com a Clementina. Eu
tinha quatro anos de idade. Clementina, lá seus treze ou catorze.
Lembro que eu ansiava pela noite. Ela me levava ao regaço da Clementina,
para nanar. Clementina me ajudava a recitar os versos que obrigatoriamente
encerravam as orações noturnas:
Com Deus me deito/Com Deus me levanto/Com a graça de Deus e do
Espírito Santo/Amém
Santo Anjo do Senhor/Meu zeloso guardador/Se a ti me confiou/A
piedade divina/Sempre me rege, guarda/Governa, ilumina, Amém.
Como estávamos em plena guerra, havia um adendo:
Fazei com que esta porcaria de guerra termine.
No inverno, Clementina enforcava o banho. Ficava com um cheiro
agridoce, mistura de gato frito com moganga. E tudo isso acebolado.
Eu era então obrigado a alongar a oração:
Santo Anjo do Senhor, trazei uma blusa perfumada pra Clementina.
Uma tarde Clementina foi tirar água do açude, que ficava atrás
da nossa casa, a estação de trem. Separando o açude do pátio, havia
uma cerca de pau-a-pique. Na outra margem, caçadores davam tiros
a esmo, perto de umas árvores. Só para chamar atenção. Nunca vi
ninguém ostentando qualquer troféu de caça por ali. Acabaram chamando
demais a atenção de Clementina. Ela abriu a cancela e caminhou na
direção do açude, de repente Clementina sumiu. Eu estava no pátio
e tinha ordens severas de jamais atravessar a cerca. No primeiro
momento não entendi nada. Meio por instinto, entrei correndo em
casa e vi meu pai com minha irmã de seis meses no colo. Ele notou
os meus olhos esbugalhados. Até esse dia, eu falava pelos cotovelos.
As palavras substituíam os brinquedos difíceis. Mas, naquele momento,
já em total comoção, eu só apontava com o dedo para o pátio.
Papai entregou o bebê para a minha mãe e se dirigiu para o pátio.
Olhou para todos os lados e, de relance, vi Clementina boiando no
açude. Só teve tempo de atirar longe o quepe vermelho e se jogar,
com roupa, sapato e tudo, no açude. Trouxe Clementina pelos cabelos,
salvando-a milagrosamente (acho que o boca a boca era desconhecido).
A cena seguinte, que durou horas, mostrava meu pai herói, mas todo
borrado. Clementina ofegante, mas, pelo menos limpa. Mamãe perplexa.
Minha maninha chorando. Eu, sem fala. Permaneci em estado de choque
até o dia seguinte. Quando voltei a falar, foi aos arrancos e fazendo
caretas. No começo a gaguez me trouxe muitos problemas. Perdi a
confiança e a vontade de falar, que era, antes, incontrolável, pois
só tinha três anos de contato com o mundo maravilhoso das palavras.
Um dia descobri a primeira vantagem de ser gago. Eu cismava que
oito vezes oito tinha que ser quarenta e oito. Claro que era sessenta
e quatro, já naquela época, mas não rimava. Num exame oral, a professora
de aritmética perguntou de chofre:
Oito vezes oito?
Senti um solavanco e cheguei a ensaiar o qua...qua...qua..
Quá o que? - disse a professora.
Qua...qua...quaqua...nada, fessora (na verdade eu fazia tempo para
lembrar do sessenta e quatro).
A professora que estava ao lado da que me fazia a pergunta e que
me conhecia mais, colou a boca no ouvido da outra, pensando que
eu não ouvia, e segredou:
Pobrezinho! Está nervoso! Mas é muito bom aluno e muito comportado.
Vamos dar dez para ele.
E mais baixinho completou: Ele é gaguinho...
No futebol muito faturei em cima da gagueira. Quando meu time era
roubado, eu corria para o juiz:
Fi...fi...fi... ffifi...
Filho de quem? Repita.
Que fi...fi...filho nada, sô juiz! Fi ...fi...fifiasco o meu time!
Quer dizer, dava tempo de pensar, enquanto gaguejava.
Bem que o Renato Portalupi podia ser gago!
No trânsito, algumas vezes, aleguei ser gago para escapar de ser
testemunha. E foi no trânsito que a tartamudez me salvou de muita
incomodação. Foi numa noite em que, ao fazer uma curva fechada,
dei de cara com um buraco cheio d'água. O carro desgovernou-se.
Tentei torcer a direção para a esquerda e o carro deslizou para
a direita, entrando de cheio na traseira de um Passat novinho, que
- felizmente para mim - estava estacionado em fila dupla, logo depois
da curva. Desci cheio de razão:
Co...co...como é que o ssssenhor estaciona em fi...fi...fila dupla
numa curva ?
O senhor está bêbado. Nem pode falar...
Que be...be...bêbado nada, rapaz. Eu só be... be...bebo le ...lele...leite
e ááágua... Tu não tá tá tá vendo que eu sou gagagago ?
Nenhum de nós sabia se o crime maior era bater por trás ou estacionar
em fila dupla numa curva. Ficou por isso mesmo. O cara deve ter
pensado:
- Pior que pagar o conserto do carro vai ser discutir com um gago
meses a fio...
No amor descobri logo que os olhos tristes, a voz, o violão, a
proverbial magreza e os lábios carnudos eram apenas elementos de
sustentação para uma arma mais poderosa: a gagueira. Nos momentos
em que alguma coisa precisa ser dita para não ficar chato, minha
mulher até hoje dispensa os habituais "meu amor", "meu pão", meu
"machão", meu "Superman", meu "tesouro", por "meu gaguinho".
E tanto isto é verdade que acabou me dando um filho gago. E ele
já usufruiu a primeira vantagem de ser gago. Como se sabe, gago
não pode servir, no quartel, já que haveria óbvio problema de transmitir
ordens rápidas:
- o cocô...o cocô...o cocô ... o comandante mandou dizer...
Chplam!!!
...que o terreno está mimimiminado..
Pois aconteceu que, recentemente, meu filho gago estava por servir
o CPOR, o que iria interromper, catastroficamente o seu curso universitário.
Por isso, foi com tristeza que ele se dirigiu para o exame clínico.
Como o médico levou um tempo além do normal examinando sua genitália,
ele resolveu protestar:
- Por que o senhor nnnnnnão larga o meu pi...pi...pi...pipicolé?
O senhor é gago?, perguntou o médico.
Ssssoossssou...
Não pode servir.
Para comemorar, passou no primeiro bar do Menino Deus e pediu:
Eu quero baba...baba...o senhor tem baba...
Bacate? bacaxi? batida?
Nnnnnnão....ba ba babatatinhas Filler!"
Documento 7
Depoimento da Sra. Doris Vasconcelos, psicóloga - CRP 07/2642:
"A propósito do comercial sobre as batatinhas Filler. Como psicóloga,
considero que os meios publicitários em geral, escravizados às leis
de consumo e controlados pela sociedade capitalista, deixam muito
a desejar quanto ao respeito que seria devido à ética.
No caso específico do comercial das batatinhas Filler, no entanto,
parece-me que devemos levar em consideração em primeiro lugar a
mensagem latente: Quem demora, perde a chance. Isto também faz parte
da lei das selvas, à qual já nos habituamos. Mormente em se tratando
de alguém que sempre estará atrasado, como um gago. A gagueira aqui
é utilizada para ilustrar a situação típica da pessoa que perde
sua chance por não ter sido capaz de atacar diretamente no ponto
correto. Mas, de forma alguma, fica caracterizada a atitude de desvalorização
do gago. Esta particularidade do seu modo de falar opera da mesma
forma que a obesidade ou o homossexualismo em tantas outras publicidades,
já aceitas e consagradas.
Documento 8
Depoimento do Dr. Sérgio Ortiz Porto, médico e escritor:
"A gagueira deve ser considerada, antes de mais nada, uma manifestação
de ansiedade. Não é uma doença, mas a expressão de um distúrbio
psicológico, em geral transitório. A maioria dos gagos não o são
quando sozinhos ou quando cantam ou declamam uma poesia.
Assim, a gagueira pode ser situada como uma das várias formas de
"nervosismo", tal como roer as unhas, ficar vermelho ou pálido,
perante uma emoção forte, ter risos nervosos ou dor de cabeça, etc.
Desta forma, se a gagueira não pode ser usada num comercial de
TV ou Rádio, as outras manifestações de ansiedade acima citadas
também não o podem e isto levaria, inapelavelmente, a um dramático
empobrecimento na Comunicação.
Há de se notar, ainda, que todas as pessoas, indefectivelmente,
têm os seus momentos de vacilação e gagueira.
Não parece haver nada no comercial em foco que diga tratar-se o
gago apresentado como um gago permanente ou crônico. Pode ser -
ninguém pode seriamente contestar - uma gagueira transitória e como
tal, normal e corriqueira" (Referências "Principles of Internal
Medicine", editor Harrison; "The normal Child", de Ronald Illingworth).
O Relator
Conselheiro Emmanuel Roberto P. Dias ofereceu a seguinte manifestação:
Relatório
1 - A Representação
O processo tem início em denúncia de consumidor, publicitário de
PoA, solicitando "atenção especial para os comerciais de TV e Rádio
da Batata Frita Filler" que, segundo ele, desrespeitam as pessoas
com determinado defeito físico (gagueira).
Acolhendo a queixa, o Conar representou ao anunciante Füller S.
A. e sua agência, Agência Um, fundamentado nos artigos 1º, 19 e
34, letra "c", do CBARP.
2 - Os Anúncios
Reproduzem o diálogo entre um garçom e um freguês claramente gago.
O freguês tenta fazer o seu pedido e não consegue completar a frase,
sendo sempre interrompido pelo garçom que tenta adivinhar o que
está sendo pedido. Quando finalmente o freguês gago consegue pronunciar
o nome do produto (batatinha), o garçom informa que o produto acabou,
para frustração do freguês. O texto do locutor vem a seguir e seu
conteúdo não altera o mérito do assunto em pauta.
3 - A Defesa
Em nome do cliente, a Agência Um apresentou nos autos, dentro do
prazo regimental, a sua defesa, cujos principais tópicos são: a)
exaltação e respeito às ações e decisões do Conar; b) desqualificação
da denúncia do consumidor, por inconsistente; c) visão própria do
que seja a publicidade e o processo criativo; d) desqualificação
da representação em todos os seus artigos e itens; e) exaltação
da coragem criativa e mercadológica do comercial. Finalmente, pede
que se anexe, como peças integrantes da defesa, os documentos de
1 a 7 (cf. descritos literalmente, acima).
Após a defesa, o Secretário Executivo promoveu a conclusão dos
autos encaminhando-os ao relator.
É, em substância, o relatório.
O Parecer
"Este é um daqueles casos em que o rigor e o evidente objetivo
e preocupação de fazer o correto nos impele para uma decisão ou
ação que, posteriormente analisada e estudada, revela-se precipitada
ou errônea.
À primeira vista o comercial das Batatinhas Filler merecia o imediato
acatamento à preocupação do consumidor. Afinal, lá estaria claramente
definido um deficiente sendo humilhado por sua gagueira, condição
bastante para a ação do Conar.
Fez bem o nosso diretor executivo quando promoveu a representação,
quando não por zelo, pelo menos porque propiciou à defesa elaborar
uma das mais interessantes peças de quantas tenho tido conhecimento
neste Conselho.
Entretanto, após análise atenta e confrontação com os artigos invocados
na representação (1º, 19, 34, letra "c" do CBARP) fui cada vez mais
me afastando da hipótese inicial (que tenha havido alguma ofensa
ao Código).
Finalmente, após a leitura da defesa (que recomendo aos conselheiros
e a todas pessoas de bom gosto e preocupadas com a ética publicitária)
ficou-me a sensação de que o processo todo teria sido em vão, se
não fosse para ficar registrado no Conar como exemplo de como deve
proceder um anunciante e uma agência quando representada por este
Conselho.
Submeto à Câmara meu voto pelo arquivamento do processo. (07.11.1984)."
A Decisão
Foi precedida de longos e acesos debates. A maioria dos Conselheiros,
afinal, deixou de acolher a proposta do Sr. relator e se perfilou
com a manifestação do Conselheiro Pedro Kassab, cujo voto vencedor
foi assim resumido no Acórdão:
"Deixando de lado os aspectos relativos a bom gosto ou a humor,
a Câmara entendeu que a simples utilização de gagos, em publicidade,
pode ser considerada não-ofensiva. No comercial ora analisado, essa
presença torna-se delicada a partir do momento em que é ordenado
pela locução em off que o gago fosse direto ao assunto, a fim de
não perder oportunidades. Ora, o portador de uma deficiência nem
sempre possui a capacidade de agir desta ou daquela maneira, razão
pela qual o anúncio se revela - sob este aspecto - desabonador e
depreciativo em relação às pessoas gagas. Uma coisa seria exibir
pessoa diferente das normais em circunstâncias que poderiam, até,
ser engraçadas. Outra, reprovável, é a ironização de defeitos, tiques
ou ademanes, colocando o portador em situação ridícula ou de injusta
inferioridade."
A Câmara, por maioria de votos, recomendou a alteração do anúncio,
conforme o previsto no artigo 50, letra "b", do CBARP.
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